GESTÃO/RUMOS DA EDUCAÇÃO
Há espaço para crescer?
Algumas divergências marcam as expectativas quanto ao futuro
da rede privada de educação básica no Brasil.
Mas um consenso une mantenedores e especialistas: é preciso
investir em profissionalização, qualificação
e em um upgrade do ambiente de aprendizagem, recorrendo-se por vezes
a estratégias ousadas. Duas tradicionais escolas em São
Paulo, por exemplo, vivem hoje um processo de fusão e pretendem
“ganhar escala” para poder “investir mais”
na qualidade do ensino.
Por Rosali Figueiredo
A rede privada de educação básica levou um grande
susto entre os anos 90 e esta década: o número de filhos
por família começou a decrescer, na contramão
da expansão do número de escolas e vagas. “Nos
anos 80, havia de três a quatro crianças por família,
proporção que caiu para 1,7 entre 2008 e 2009”,
aponta o economista José Milton Dallari Soares, diretor do
SEBRAE em São Paulo, consultor no segmento e professor universitário.
Nesse contexto, Milton Dallari traça um diagnóstico
preocupante para o setor, de excesso de vagas, um quadro de maior
oferta que demanda, deixando aos mantenedores “o imenso desafio
de se reorganizar” nos próximos anos. Com base em dados
do IBGE, ele prevê um movimento contínuo de queda da
população brasileira na faixa etária até
17 anos e a estabilização da relação de
filhos por família em torno de 1,7. “A partir de 2030,
subirá significativamente o número de idosos”,
afirma.
Mas para o presidente do Sieeesp (Sindicato dos Estabelecimentos de
Ensino do Estado de São Paulo), Benjamin Ribeiro da Silva,
mantenedor de duas escolas, o pior já passou e as perspectivas
são boas. “Até 2016 voltaremos aos patamares do
final da década de 80.” Segundo ele, na época
a rede privada do ensino básico absorvia 21% dos estudantes
brasileiros, proporção que baixou para 11% em 2003,
mas que retomou o fôlego desde então, chegando a 16%
em 2009, “com espaço para crescer ainda mais”.
“O grande sonho de consumo das classes C e D no Brasil é
ter o filho na escola privada”, diz. Por outro lado, o dirigente
afirma que mesmo com a retomada muitos estabelecimentos fecharam entre
2006 e 2008, portanto, a estrutura estaria hoje um pouco mais adequada
ao tamanho da demanda. “Mas o mercado está extremamente
competitivo e quem não tiver competência pedagógica
e administrativa não sobreviverá.”
Para o consultor Eugênio Machado Cordaro, o problema gerado
pela “curva decrescente de filhos” está absorvido
e “o normal agora é crescer”. Cordaro é
administrador graduado pela Fundação Getúlio
Vargas de São Paulo e pós-graduado em Economia pela
mesma instituição, atua desde 1983 com a educação
privada e acompanha o dia a dia de 35 instituições.
Assim, ele diz observar in loco uma retomada. “Desde 2007, a
maioria das escolas boas, bem equilibradas, voltou a crescer em número
de alunos. Se algumas não registraram crescimento, o problema
sai da esfera populacional e entra no campo da competitividade de
mercado, que compara preço e qualidade.”
“O mercado ainda apresenta mais oferta
que demanda, mas isso está se estabilizando. Estou mais otimista
em relação ao cenário dos próximos cinco
a dez anos, mas a escola terá que estar bem preparada estrategicamente
para aumentar o número de alunos.” Eugênio Machado
Cordaro (consultor)
“A educação é prioridade para
as famílias, assim como saúde e alimentação.
Se o pai percebe que o filho está crescendo, a escola será
uma das últimas coisas que ele irá mexer.” João
Carlos Martins (Nova Escola Judaica)
“Até 2016 voltaremos aos patamares do final
da década de 80. Mas o mercado está extremamente competitivo
e quem não tiver competência pedagógica e administrativa
não sobreviverá.” Benjamin Ribeiro da Silva (Sieeesp)
Desafios - Segundo ele, “o mercado ainda apresenta mais oferta
que demanda, mas isso está se estabilizando”. “Estou
mais otimista em relação ao cenário dos próximos
cinco a dez anos, mas a escola terá que estar bem preparada
estrategicamente para aumentar o número de alunos.” Isso
passa necessariamente por um equilíbrio orçamentário,
sem deixar de investir na qualidade. Não é tarefa simples,
mesmo porque, em um primeiro momento, muitos mantenedores promoveram
um ajuste de custos, “quem trabalhou nisso nos últimos
dez anos sabe que não tem mais onde cortar”. É
claro que pode ter conduzido o processo de maneira equivocada, “sem
estudar aonde existiam possibilidades efetivas de cortes”. Mas,
se fez certo a lição de casa, o caminho seria apostar
na construção de sua imagem, tendo como base a qualidade
administrativa e pedagógica.
Inexiste uma receita única que garanta à rede privada
um respiro orçamentário mais perspectivas de crescimento,
mas uma palavra-chave deve nortear suas ações e escolhas,
avalia outro consultor, João Carlos Martins: “a competência”.
“Ser competente significa funcionar de maneira equilibrada em
termos de finanças, valorizar o funcionário e oferecer
um ambiente de aprendizagem em que os alunos se sintam desafiados,
motivados, trabalhem com as novas tecnologias e entendam o mundo atual.”
Nem que para isso seja necessário recorrer a estratégias
ousadas, como a fusão que João Carlos vem comandando
entre o Colégio Hebraico Brasileiro Renascença, localizado
no bairro de Santa Cecília, região central de São
Paulo, e a Escola Brasileira Israelita Chaim Nachman Bialik, de Pinheiros,
na zona oeste, a qual está dando origem à Nova Escola
Judaica.
Diretor geral do Renascença há cinco anos, João
Carlos explica que o processo de fusão, iniciado em 2009, permitirá
“ganhar escala com mais alunos e receita” e possibilitará
“investir mais”, ou seja, “competir e sobreviver
com excelência pedagógica neste mercado que está
aí”. Durante 2009, houve adequação da matriz
curricular, ações voltadas à formação
e qualificação das equipes pedagógicas, além
da aproximação dos setores administrativos, que deverão
estar unificados em 2010. “A ideia é crescer”,
aposta João Carlos, para quem o contexto do setor é
“preocupante”, mas não “pessimista”.
“A educação é prioridade para as famílias,
assim como saúde e alimentação. Se o pai percebe
que o filho está crescendo, a escola será uma das últimas
coisas que ele irá mexer”, avalia. Então, a pedra
de toque “é investir e usar bem a receita para produzir
bons resultados educacionais”, o que se consegue apenas com
“a profissionalização dos processos e a aproximação
entre o administrativo e o pedagógico”, diz. João
Carlos, que dirige estabelecimentos privados há vinte anos,
observa que as escolas, de maneira geral, costumam ser “refratárias
às mudanças, apresentam certa resistência em se
renovar”. Uma das posturas que devem ser adotadas é implantar
sistemas de avaliação dos profissionais, “para
cobrar resultados”. De outro modo, é preciso incluir
no orçamento anual verbas destinadas à formação
e treinamento dos professores, recomenda. O diretor sugere, por exemplo,
projetos de capacitação para uso das novas tecnologias
de comunicação, de forma a que o professor possa “entender
a linguagem do aluno e perceber o quanto ele mudou”.
Outro caminho possível é adotar posturas que passem
pela sustentabilidade, de uso racional dos recursos materiais e insumos,
como água e energia elétrica, envolvendo os profissionais,
alunos e comunidade. Algo que pode ser conquistado à base da
“gestão participativa”, afirma o diretor da Nova
Escola Judaica. “Ainda há muita resistência a isso
dentro da rede privada, porque é um processo trabalhoso. A
decisão participativa é mais lenta, mas através
dela todos se tornam co-responsáveis pelas regras, o que ajudaria
muito, por exemplo, no uso sustentável dos materiais.”
Nem todas as estratégias são consensuais entre os mantenedores
e especialistas, o próprio presidente do Sieeesp questiona,
por exemplo, a eficiência das fusões, entretanto o impacto
da crise das últimas duas décadas, aliado às
demandas geradas pela tecnologia da informação, estão
levando a muitas mudanças na rede privada de ensino.