curso livre de
PROJETOS TRANSDISCIPLINARES
Por Ângela Antunes e Paulo Roberto Padilha
angela@paulofreire.org / padilha@paulofreire.org

Módulo 11
XXI – Avaliação dialógica, formativa e continuada na
Educação Cidadã
XXII – Avaliação Institucional


XXI – Avaliação dialógica, formativa e continuada na Educação Cidadã

A avaliação é e sempre foi um dos maiores desafios da educação. Já lemos inúmeras vezes que ela é o “nó górgio” do processo educativo, ou seja, um nó impossível de desatar, por ser algo tão difícil de resolver. Preferimos dizer que não é bem assim. Trata-se de um problema que, para além de ser fácil ou difícil, caracteriza-se por sua complexidade.


Por ser uma atividade complexa, a avaliação nos permite pensar alternativas que superem eventuais perspectivas tecnicistas de trabalho que, durante tanto tempo, e até os dias atuais, acabam justificando práticas educativas centralizadoras e unilaterais – quando só o professor avalia e aos alunos cabe apenas serem avaliados – e injustas – que excluem e expulsam os alunos da escola, trazendo grandes prejuízos aos sistemas educativos e, principalmente, causando traumas pessoais pela reprovação escolar. A avaliação torna-se algo assustador quando, na verdade, ela é uma das etapas importantes que deve favorecer a aprendizagem dos alunos e das alunas.


Por que falamos tanto em avaliação da aprendizagem? Diríamos que é porque a avaliação é elemento central do currículo da escola e também porque continuamos necessitando de mudanças nessas práticas, principalmente considerando que as escolas continuam reprovando muito ou, então, aprovando os alunos sem que eles realmente aprendam – que é o que acontece quando, de repente, “de cima pra baixo”, são tomadas medidas apressadas de adoção, por exemplo, de propostas de progressão continuada ou da avaliação nos regimes de ciclos. Vejam que, em princípio, estas são excelentes propostas, que atenderiam às demandas históricas do respeito ao ritmo cultural dos estudantes, mas que, para serem adotadas, devem fazê-lo mediante processos de formação continuada de todos os segmentos escolares, com adesão voluntária e processual das escolas.


Avaliar é uma atividade permanente em nossa vida e, no campo da educação, como em tantos outros, caracteriza-se por ser uma atividade intencional e sistemática, que tem relação direta com os objetivos educacionais sempre presentes nos diferentes processos de planejamento. Na perspectiva da educação cidadã a avaliação caracteriza-se por ser dialógica, formativa e continuada, o que se aplica tanto à avaliação da aprendizagem, como à institucional.


A categoria da dialogicidade, presente na obra de Paulo Freire, remete-nos à abertura e à necessária participação de vários sujeitos no processo avaliativo, em todas as suas etapas, pois, se professores e alunos ensinam e aprendem, eles também avaliam e são avaliados a todo momento.


A avaliação só faz sentido se estiver vinculada ao planejamento, seja em que instância for. No caso da aprendizagem, deve se referenciar ao projeto político-pedagógico da escola, à sua proposta pedagógica e ao plano de trabalho dos professores – preferencialmente definido coletivamente, normalmente no início do ano letivo, durante os períodos de planejamento escolar, mas atualizado processualmente, durante todo o ano. Aquela visão de que se planeja no início do ano e que tudo o que se planejou deve ser cumprido à risca, sem qualquer mudança, é uma visão inflexível e retrógrada de planejamento e de avaliação que, portanto, deve ser superada. Como ensina Paulo Freire, cabe-nos uma vigilância ética e estética na avaliação das práticas político-pedagógicas.


A avaliação deve ser também formativa no sentido de, primeiramente, conhecer bem o aluno e o contexto com o qual se trabalha e, para além de classificar ou selecionar, deve dimensionar muito bem o foco ou as prioridades da avaliação, definindo com clareza as suas etapas e os seus processos. A avaliação considera as múltiplas dimensões da formação humana: a cognitiva, afetiva e relacional, entre outras. Ou seja, a avaliação contribui para a formação humana em sua integralidade.


A avaliação deve ser também continuada porque estamos sempre avaliando. E é, em si mesma, um processo que nunca termina, nem mesmo quando alguns de nossos projetos ou programas educacionais alcançam suas terminalidades.


Conforme escreveu Paulo Freire, um dos momentos mais importantes da formação docente é quando acontece a reflexão sobre a prática. Refletir é pensar o já pensado, é voltar na origem dos nossos projetos e dos nossos planos, é recuperar as “leituras do mundo” que realizamos no início do nosso trabalho e durante o seu desenvolvimento, visando ao reconhecimento dos avanços que vamos conseguindo, por menor que pareçam ser. E é reconhecendo os próprios limites e as potencialidades nos nossos processos avaliativos que, com muita humildade e ousadia, estaremos registrando a história que também soubemos escrever.


A LDB 9394/96, em seu artigo 24, inciso V, letras “a”, “b” e “c”, por exemplo, estabelece que “a verificação do rendimento escolar observará: a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais; b) possibilidade de aceleração de estudos para alunos com atraso escolar; c) possibilidade de avanço nos cursos e nas séries mediante verificação do aprendizado.


Só a visão parcial deste inciso da LDB já nos permite algumas atualizações de muitas de nossas práticas avaliativas quando, por exemplo, avaliamos os alunos apenas com uma prova escrita e um trabalho, enfatizando os aspectos quantitativos em vez dos qualitativos. Ou, então, quando deixamos o tempo passar, às vezes o ano inteiro – quando não vários anos – para, tão somente depois, darmos alguma atenção em particular para os alunos que “não aprendem”, ou que consideramos que estão atrasados e defasados em suas aprendizagens... este é o caso, por exemplo, do aluno que já está na segunda, terceira ou quarta série do Ensino Fundamental, que ainda não consegue ler nem aprender. Perguntamos: o que o professor, a escola e a rede de ensino estariam fazendo para permitirem que isso aconteça? Vejam que a própria legislação já estabelece mecanismos específicos para tais correções de fluxo.


Para além de falarmos em avaliação classificatória (que enfatiza a dimensão quantitativa da avaliação) ou diagnóstica (que dá ênfase à dimensão qualitativa), consideramos que a avaliação dialógica, formativa e continuada nos permite avaliar qualiquantitativamente as aprendizagens. Nessa direção, tudo o que foi trabalhado pode ser avaliado: os conteúdos, as vivências, o que foi recriado no processo, a qualidade das pesquisas realizadas, os avanços observados nas aprendizagens socioculturais e socioambientais, bem como a validade do próprio processo avaliativo que foi utilizado.


Coletiva e dialogicamente, saberemos, desta forma, melhor definir os critérios da avaliação (o que, com quem, quando, para quê), os padrões (como, com quais instrumentos, notas, menções, símbolos, etc.); os registros (portfólios, provas escritas, dossiês, trabalhos diferenciados) e como melhor aproveitar os resultados e os processos avaliativos.

XXII– Avaliação Institucional

Trataremos agora da avaliação institucional, ou seja, da necessidade de avaliarmos também todos os sujeitos, grupos, setores e o sistema educacional como um todo. Essa perspectiva amplia muito a importância da própria avaliação, tirando dos pseudoespecialistas avaliadores o monopólio da realização dessa importante etapa de qualquer programa ou projeto institucional, ou seja, a avaliação.


A avaliação institucional é, sem dúvida, exigência do nosso tempo e atividade indispensável para a formação humana, sobretudo se quisermos democratizar as relações no interior das nossas atividades educacionais. Além disso, se pretendemos realizar este processo democraticamente e socializar os seus resultados, que possamos experimentar diferentes métodos e técnicas de avaliações, internas, externas, reinventando as relações humanas enquanto avaliamos, criando novas formas de registro que vão se delineando também no processo, com a contribuição dos vários sujeitos delas participantes e aproveitando, o mais possível, as novas tecnologias para criarmos bancos de dados disponibilizados cada vez mais em rede, visando à democratização da informação e, a partir de sua seleção criteriosa, do próprio conhecimento.


Conforme contribuições do Professor Eliseu Muniz de Souza,
a avaliação institucional se configura como uma ação deliberada e sistemática de uma instituição em avaliar o conjunto de suas ações (ou partes), buscando conhecer seus processos, estruturas e relações e os fatores intervenientes que influenciam os resultados alcançados, considerando os recursos disponibilizados e o significado social que as suas atividades expressam. As instituições que se auto-avaliam podem ser de caráter público (o estado em seus diversos níveis e em suas diferentes políticas) ou privadas. O caráter institucional da avaliação é representado pela decisão política da instituição de se auto-avaliar, portanto, é a avaliação da instituição que está em questão, realizando-a de forma sistemática e abrangente, incorporando-a como instrumento de gestão e reconhecimento, inscrevendo-a na sua identidade e cultura.

Desde a década de 90 se pratica, no Brasil, a avaliação institucional como “preocupação essencial para a melhoria dos serviços [educacionais] e para a conquista de maior aumento de escolas e universidades” (GADOTTI, 2000). Conforme escreveu Moacir Gadotti, com esta avaliação “buscam-se novos rumos, definindo melhor o perfil institucional e levando, tanto a escola estatal quanto a não-estatal e os sistemas de ensino, a repensarem o seu projeto político-pedagógico. (GADOTTI, 2000:97).


Só para darmos um exemplo, a avaliação institucional é um dos componentes do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). Além disso, visando a esta melhoria da educação, os sistemas de ensino têm realizado exames e provas nacionais, bastante conhecidos dos professores, como, por exemplo, no caso brasileiro, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP), entre outros. No contexto do novo Plano de Desenvolvimento da Educação , recém criado pelo Ministério de Educação brasileiro, o Inep elaborou o “Índice de Desenvolvimento da Educação Básica” (IDEB).


Historicamente, quando tratamos da avaliação institucional, estamos nos referindo, de uma forma geral, à avaliação das universidades, dos sistemas de ensino e das políticas públicas a eles relacionados. No entanto, esta avaliação se amplia a cada dia e pode ser realizada em quaisquer instituições educativas. Pensando mais nessa dimensão, falaremos aqui de “avaliação institucional, dialógica, formativa e continuada”.


No entanto, nesta abordagem sobre a avaliação institucional, interessa-nos apresentar as suas características mais gerais. Tudo o que fizer parte do PEPP, do PTA, da PP, e do currículo de uma instituição educacional, especialmente no ensino formal, regular, mas extensivo também àquelas instituições que trabalham no âmbito da educação não formal, necessita e pode ser avaliado de forma sistemática – com registros formais, qualitativos e quantitativos –, publicamente – que conte com a participação de várias pessoas e instituições e cujos processos e resultados sejam transparentes e de conhecimento público –, e considerando a sua dimensão complexa – que leve em conta diferentes dimensões da realidade avaliada, dos sujeitos que avaliam, e os vários tempos e espaços da avaliação.


O mais importante, nesse processo, é que a avaliação institucional não acabe se fundamentando na lógica do produto, dos resultados, como já tem sido, infelizmente, uma vertente bastante comum dessa avaliação, principalmente quando ela é pautada por princípios mercantilistas. Mas, se pensarmos na avaliação institucional visando ao benefício do público, como é a nossa concepção de avaliação, toda a sociedade será beneficiada por ela. Nesse caso, visaríamos a uma sociedade que valoriza a participação, a gestão compartilhada dos projetos, dos programas públicos e da própria avaliação que se pratica.
Conforme estudos de Moacir Gadotti e Genuino Bordignon, bem como as recentes pesquisas feitas pelo professor Eliseu Muniz de Souza, podemos considerar os seguintes princípios do que hoje chamamos de “avaliação institucional dialógica, formativa, dialógica e continuada: globalidade – visão de totalidade das ações da instituição ou programa; comparabilidade – processos e instrumentos adequados que permitam identificar as mudanças esperadas; diagnóstico – a busca do conhecimento mais completo possível da instituição; respeito à identidade institucional – cada instituição/cidade é diferente da outra, com sua cultura e especificidades; aprendizagem solidária e dialógica – avaliação não para punir nem para premiar, mas para identificar dificuldades, reconhecer avanços e promover ajustes; adesão voluntária – importância da participação espontânea no processo para a correção dos rumos que legitima o programa e a própria avaliação; continuidade e transparência – a confiança no processo se afirma pela relação ética entre os participantes, pela abertura dos processos avaliativos e pela publicização dos critérios, dos padrões e dos resultados observados”.


 


Este módulo foi publicado na Revista Direcional Educador - edição 37 - fevereiro/2008