curso
livre de
PROJETOS TRANSDISCIPLINARES
Por Ângela Antunes e Paulo
Roberto Padilha
angela@paulofreire.org / padilha@paulofreire.org
Módulo 10
XIX – Currículo Intertranscultural como fundamento da
Educação Integral
XX – Arte, educação, múltiplas linguagens e qualidade
do ensino intertranscultural
XVII – Currículo intertranscultural como fundamento da educação
integral
O currículo intertranscultural dá ênfase à diversidade cultural na organização de toda ação educativa, e essa diversidade carrega em si mesma diferentes diferenças e múltiplas semelhanças. Esta perspectiva curricular pode contribuir para fundamentar e problematizar processos educacionais que estimulem a criação, nas unidades educacionais, de espaços e tempos para o diálogo interativo e comunicativo entre as aprendizagens que acontecem em todas as modalidades e níveis de ensino, e as decorrentes dos processos de educação não formal e informal.
Na história da teoria do currículo vemos, quase sempre, diferentes
teorias negando-se umas às outras. Ao contrário disso, queremos
aqui defender que cada teoria do currículo – tradicional, crítica
ou pós-crítica -, oferece à aprendizagem elementos
curriculares importantes que, ao invés de negados, devem ser valorizados,
superando-se apenas o que se tratar de elementos que, nos dias atuais, são
considerados arcaicos, ultrapassados, rançosos ou, no mínimo,
já excessivamente trabalhados e/ou resolvidos na dimensão
dos estudos curriculares. Este é o caso, por exemplo, da rigidez
disciplinar ou da centralidade apenas no trabalho do professor, das ênfases
apenas às questões ideológicas ou, pior ainda, quando
se nega a educação como ato político, quando se considera
que a ciência é neutra ou quando o currículo enfatiza
apenas a técnica ou o instrucionismo. Estamos, com isso, afirmando,
por exemplo, que a educação é um ato político,
é também ideológica e que a disciplina deve existir,
não como fator de punição unilateral professor-aluno,
mas como resultado do diálogo na escola e na sala de aula, que se
traduz em princípios de convivência.
Trata-se de educar e tentar superar as dicotomias que resultam da desinformação,
do fundamentalismo de todo tipo, das incertezas ou das certezas absolutas
no campo das ciências, das artes, da religião, da política.
Isso significa caminharmos entre, ao mesmo tempo e para além das
históricas visões particularistas ou universalistas que resultam
de diferentes interesses de pessoas, grupos e instituições,
entre os quais os econômicos, que, por exemplo, negam sistematicamente
o diálogo para enfatizar e tornar único o discurso pedagógico,
social, cultural e político, subordinando tudo às leis do
mercado.
Organizar um currículo intertranscultural é trabalhar mais
com as conexões (uma coisa e outra) do que simplesmente com a negação
(uma coisa ou outra) dos vários conhecimentos e saberes e suas respectivas
manifestações socioculturais e socioambientais relacionadas
ao Sistema Cultural Simbólico (linguagens, artes, ciências
humanas, transcendências, etc.), Associativo (ciências políticas,
direito, antropologia, sociologia, etc.) e Produtivo (ciências naturais,
tecnologias, etc.).
Entendemos o currículo da escola como o conjunto de ações,
relações, textos e metacontextos que configura o todo das
aprendizagens escolares, dos conhecimentos e saberes que traduzem as experiências
significativas que contribuirão para a formação humana
cidadã, includente e emancipadora da pessoa. Tudo o que se passa
na escola, na comunidade e no mundo em que vivemos interessa ao currículo
da escola. É por isso que, nesta perspectiva, a educação
bebe na fonte de várias teorias curriculares, educacionais e políticas,
mas não nega saberes e conhecimentos considerados subjetivos, não
fenomenais, difíceis de serem observados sob o ponto de vista dos
critérios para que determinados conhecimentos sejam considerados
científicos e que, por isso mesmo, foram sendo deixados de lado na
história da ciência moderna, tanto pela comunidade acadêmica,
como pelas próprias escolas. Queremos superar o currículo
monocultural e, pior ainda, daltônico culturalmente, que não
enxerga as diferentes diferenças e as múltiplas semelhanças
entre os sujeitos do processo educativo, em várias dimensões
– culturais, sociais, econômicas, políticas, entre outras.
Em síntese, o currículo intertranscultural é fundamento
para a educação integral porque para educar integralmente
a pessoa devemos buscar ter sempre uma visão de totalidade das ações
propostas nos processos educativos, mesmo reconhecendo a complexidade dos
mesmos. Queremos evitar, por exemplo, a prática do projetismo ou
o pragmatismo que pretendem educar os alunos e as alunas sem criar condições
efetivas, espaciais e temporais, para que eles sejam capazes de estabelecer
relações com outros sujeitos e entre diferentes manifestações
do conhecimento e da sabedoria acumulada pela humanidade, o que leva quase
sempre à reprovação ou à aprovação
automática, à evasão que culpabiliza o aluno ou à
conclusão de cursos sem que aprendizagens significativas e cidadãs
realmente aconteçam.
O que também caracteriza este currículo é que o seu
ponto de partida não é a disciplina, a área do conhecimento
ou a própria ciência. O nosso ponto de partida são as
pessoas, os coletivos humanos e as relações que eles estabelecem
entre si e com o mundo em que vivem. Portanto, começamos o processo
educacional pelo reconhecimento das histórias de vida, das culturas
e das identidades, semelhanças e diferenças culturais entre
os sujeitos que educam e se educam no diálogo permanente. O que nos
interessa no início do processo pedagógico são justamente
as relações humanas, justamente porque se trata de educar
para a convivência, para as inter-relações e para a
interconectividade entre as pessoas e entre elas com o que se passa no planeta,
nas suas mais complexas, mais singelas e mais dinâmicas dimensões.
É isso o que nos permitirá educar para o exercício
da cidadania ativa, para a garantia dos direitos e para a emancipação
humana. E não pela via da violência, da impessoalidade, da
ciência considerada neutra, de relações puramente técnicas,
científicas ou de estatísticas educacionais balizando todo
o processo.
Seremos tanto mais intertransculturais, quanto mais nos colocarmos do ponto
de vista da outra cultura, resgatando, respeitando e valorizando as várias
etnias e, a partir disso, conhecendo melhor a nossa própria cultura
e as nossas múltiplas identidades. E isso não significa apenas
trabalhar, por exemplo, com grupos de pessoas que se encontram pela primeira
vez em determinados contextos socioculturais de migração.
Isso significa reconhecer, no dia-a-dia das nossas relações,
que todas as pessoas são, em alguma dimensão, diferentes e
semelhantes às outras, em determinados aspectos, e essa situação
nos ajuda a construir uma relação educacional mais crítica,
humanizada, mais condizente com os interesses, com as experiências,
com as necessidades e com as características de cada cultura. Há
que trabalharmos os conflitos que surgem da convivência humana, buscando
justamente superar toda e qualquer injustiça, preconceito e todas
as formas de violência.
O objeto do conhecimento nesta organização curricular considerará
os referenciais da nossa práxis (união dialética entre
teoria e prática) e, por conseguinte, selecionará bibliografia,
registros e sistematizações das experiências, bem como
materiais didático-pedagógicos compatíveis com as exigências
próprias do processo educacional aqui proposto. São também
conteúdos de aprendizagem as mais recentes descobertas das ciências,
em todas as suas áreas – da biologia, da bioética, da
física quântica, da cibernética, do imaginário,
das neurociências, da psicopedagogia, da semiótica, da linguística,
da neurolinguística, da antropologia, da sociologia política,
das pedagogias, do direito, enfim, das ciências humanas, naturais
e produtivas, associadas às novas tecnologias e às artes,
que favorecem os processos educacionais e o avanço das próprias
ciências e de outras formas de expressão e sentir humanos.
XVIII – Arte, educação, múltiplas linguagens e qualidade do ensino intertranscultural
Procurarmos aprender a utilizar as várias linguagens artísticas, as várias formas de expressão simbólica e representativa, material e imaterial, presentes em nossas vidas cotidianas, é uma forma de avançar na direção da construção de uma educação que compreende o mundo com base nas relações dialógicas que nele se estabelecem e que também podem se dar por conexões (e/e), conforme vimos acima. Ao valorizarmos a associação da arte à educação e a utilizacão de múltiplas linguagens para viabilizarmos processos de ensino e de aprendizagem com qualidade sociocultural e socioambiental, estamos propondo, na prática, que professores, professoras e todas as pessoas que educam e se educam na escola e na comunidade, possam exercitar os contextos favorecedores do diálogo aprofundado sobre a sua cultura, origens, sonhos, desejos, expectativas e qualidade de vida, de trabalho, de aprendizagens e sobre as suas visões de mundo. Este movimento educativo permite o resgate da capacidade de criticar, de problematizar, de planejar juntos o que será estudado, de entender a relação do que se aprende nos contextos educacionais com as discussões relacionadas às temáticas relacionadas ao currrículo da escola.
A arte nos sensibiliza, nos emociona de diferentes formas e intensidades,
o que é comum a todas as manifestações artísticas:
musicais, cênicas, plásticas, entre outras. Por exemplo, quando
alguém escreve um novo texto, um novo livro, quando compõe
uma personagem teatral ou cinematográfica, quando se ensaia uma nova
coreografia de dança ou reinterpretamos alguma já existente,
quando pintamos uma nova tela, um novo desenho, ou quando captamos e revelamos
uma imagem fotográfica que sempre quisemos registrar, num momento
único de nossa experiência vital ou, ainda, quando esculpimos
uma imagem, dando novas formas a determinados materiais, quando realizamos
alguma descoberta científica ou nos entregamos profundamente à
nossa atividade profissional e vemos brotar do nosso esforço, individual
ou coletivo, o resultado das sementes antes plantadas... estamos sendo artistas.
E todas as pessoas podem realizar atividades artísticas, até
porque este potencial é próprio da nossa humanidade.
Entendemos que emocionadas e sensibilizadas as pessoas aprendem melhor,
abrem-se para novas aprendizagens e estabelecem, mais facilmente, relações
de diálogo, de reciprocidade e de complementaridade com o mundo que
as cerca. O processo criativo permite, pois, relações humanas
mais pacíficas, menos violentas, mais humanizadas, críticas
e cidadãs, mobilizando aprendizes e ensinantes para a construção
de um mundo educador sustentável, para uma vida mais sustentável
nas dimensões econômica, cultural, ambiental, educacional,
política, sexual, ética, etc.
Trabalhamos para que arte e educação, associadas, contribuam
para dar mais sentido às aprendizagens humanas transformadoras e
mudancistas, mais do que simplesmente inovadoras, permitindo a construção
do currículo intertranscultural. Nessa direção, queremos
combinar não só os conhecimentos científicos inter
e transdisciplinarmente, mas, sobretudo, considerar outros saberes, geralmente
desprezados pela ciência, relacionados às subjetividades, sensibilidades
e sentimentos das pessoas, visando a uma educação integral,
relacionada à totalidade do sentir-pensar-ser-fazer humanos, fundamentada
na perspectiva do currículo intertranscultural, aqui brevemente analisado.
Por fim, observamos que não devemos pressupor que a arte é
neutra, pois há uma arte que serve à dominação
social, ao status quo, à massificação cultural, à
alienação; da mesma forma que há uma arte progressista,
progressiva, crítica, de vanguarda, que busca emancipar a pessoa,
transformar o mundo e aproximar sensivelmente as pessoas da natureza, contribuindo,
pois, para o fortalecimento de ações transformadoras em todos
os níveis das relações humanas e destas com o planeta.
Sem fazer apologia à arte, queremos um mundo mais feliz, um Mundo
Educador, mais justo e pacífico, no qual as múltiplas linguagens
artísticas são formas de incentivar as novas gerações
a cultivar e a vivenciar valores para além do consumo, da competição
desenfreada e violenta e do utilitarismo presente na própria arte
que, hoje, invade os meios de comunicação de massa. Nesse
âmbito, a arte massificada que vemos hoje nas grandes mídias
– claro, com exceções -, não colabora para que
nossas crianças, jovens e adolescentes ampliem os seus universos
como construtores de um mundo mais sensível.
Trabalhar mais e mais a arte associada à educação,
às ciências e a outras formas de conhecimento e saberes, considerando
que a arte já é, em si mesma, educação, pode
contribuir para problematizar a cultura de massa, tão presente no
nosso cotidiano e também nas nossas escolas, globalizando a cultura
e fortalecendo ainda mais os efeitos perversos da globalização
econômica da qual todos somos vítimas e, dependendo de nossas
ações ou omissões, sujeitos ou objetos.
Finalmente, associar arte e educação significa incluir sempre
mais as diferentes manifestações artísticas na prática
educacional em todos os seus níveis e modalidades, valorizando a
cultura dos diferentes povos, a alegria na escola e na comunidade, o lúdico,
a corporeidade, a sensibilidade e a afetividade, a potencialidade musical,
cênica, plástica e virtual das pessoas, assim contribuindo
para novas formas de alfabetização, próprias do nosso
tempo: cultural, emocional, tecnológica, cibernética, humanizada,
caracterizadoras de uma educação com qualidade sociocultural
e socioambiental, na perspectiva do currículo intertranscultural
que aqui estudamos.