curso livre de
PROJETOS TRANSDISCIPLINARES
Por Ângela Antunes e Paulo Roberto Padilha
angela@paulofreire.org / padilha@paulofreire.org

Módulo 9
XVII – PDE da Escola e PEPP – distinções
e complementaridades
XVIII – Etapas de elaboração do PEPP: sugestões
práticas


XVII – PDE da Escola e PEPP – distinções e complementaridades

Considerando a Constituicão Federal de 1988, a LDB 9394/96, o PNE 2001, o FUNDEB e as recentes discussões em torno do novo PNE (CONAE 2010), observamos que nos últimos anos ocorre no país uma acelerada expansão das matrículas em todos os níveis da educação básica, especialmente em relação à quase universalização do atendimento do Ensino Fundamental, o que não significa, necessariamente, ensino de qualidade. Nessa direção é que surgem, mais recentemente, diversas iniciativas do MEC, definindo a aprendizagem como foco da educação. Entre elas estão o Decreto 6.094, de 24 de abril de 2007, estabelecendo o “Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação”, apontando resultados concretos a serem alcançados, em regime de colaboração, estabelecendo, em seu artigo terceiro, que “a qualidade da Educação Básica será aferida, objetivamente, com base no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB)”.


Sem entrarmos na análise específica deste Plano de Metas, é importante lembrarmos que, neste mesmo contexto, o MEC lançou o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) , “colocando à disposição dos estados, municípios e do Distrito Federal instrumentos eficazes de avaliação e de implementação de políticas de melhoria da qualidade de ensino”, conforme ele próprio anuncia no seu site oficial, segundo palavras do próprio Ministério da Educação.


A contribuição mais original do PDE foi o fato de estabelecer metas objetivas associando qualidade da educação com quantidade em relação ao atendimento (matrículas, acesso). Mas o desafio aqui é também superar a polissemia do conceito de “qualidade”. Na perspectiva da Educação Cidadã, temos falado em qualidade sociocultural e socioambiental da educação e das aprendizagens, pois todo processo educacional deve contribuir para a busca da superação da desigualdade, da injustiça e da exclusão social e cultural, bem como a urgência de se educar para a sustentabilidade, em todos os sentidos e dimensões da vida existente no planeta.


O MEC, que tem se referido à qualidade social da educação, criou também o Plano de Ações Articuladas (PAR), propondo um novo regime de colaboração entre União, estados, municípios e Distrito Federal, para aprimorar a atuação dos entes federados com base em seus respectivos planos de ações. Nesse sentido, objetivou a repactuação dos planos de ações de cada ente federado e ofereceu, para consulta pública, relatórios dos referidos planos de ações articuladas e elaborados pelos estados e municípios que aderiram ao plano de metas Compromisso Todos pela Educação. Este Plano contou com a adesão dos 26 estados e do DF, além de todos os 5.563 municípios brasileiros.


Segundo o MEC “o PDE oferece aos estados e municípios uma variedade de mais de 40 ações e programas que englobam desde a Educação Infantil até a pós-graduação”. (http://portal.mec.gov.br). Queremos aqui destacar o que ficou conhecido como PDE Escola, que “representa para a escola um momento de análise de seu desempenho, ou seja, de seus processos, de seus resultados, de suas relações internas e externas, de seus valores, de suas condições de funcionamento. A partir dessa análise ela se projeta, define aonde quer chegar, que estratégias adotar para alcançar seus objetivos e a que custo, que processos desenvolver quem estará envolvido em cada etapa e como e a quem se prestará conta do que está sendo feito (…) É uma ferramenta gerencial que auxilia a escola a definir suas prioridades estratégicas, a converter as prioridades em metas de aprendizagem e outras estabelecidas, a medir se os resultados foram atingidos e a avaliar o próprio desempenho”(MEC, 2006).


Para ser elaborado, o PDE Escola envolve a utilização de diferentes instrumentos e formulários, recomendados pelo MEC, que passam pelas seguintes etapas: a) preparação e escopo de responsabilidades (mobilizando toda a unidade educacional, principalmente a partir do seu conselho de escola ou colegiado afim); b) autoavaliação – com base em diferentes “critérios de eficácia”; c) definição da visão estratégica – visão da escola, visão de futuro, missão, valores, objetivos estratégicos, etc.; d) definição do plano de suporte estratégico – definição coletiva de metas para alcançar a visão estratégica; e) execução – como será executado o plano para se alcançar as metas e; f) monitoramento-avaliação – análise permanente e contínua dos processos e resultados.


O PDE Escola dá ênfase à gestão da aprendizagem pautada na construção de uma visão institucional mais estratégica, a partir do qual a unidade educacional poderá obter apoio financeiro suplementar junto ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Para isso, cada escola deverá elaborar o seu Plano de Ações Financiáveis (PAF), que tem por objetivo “auxiliar a escola na melhoria da aprendizagem dos alunos e, por conseguinte, o IDEB da escola. É o conjunto de metas e ações selecionadas pela escola, a partir do seu Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE), apresentado em formulários próprios e que subsidiará a liberação dos recursos do PDE-Escola.”(portal do mec/paf_pde.esc.pdf).


Enquanto o PDE-Escola é uma ferramenta de gestão de aprendizagem inspirada nos modelos de gestão empresarial e, por isso mesmo, no Movimento “Todos pela Educação”, que considera que o PDE tem uma concepção “gerencial” melhor do que o Plano Nacional da Educação (PNE), o Projeto Eco-Político-Pedagógico da Escola, que tem sua origem na experiência da Escola Pública Popular e da Escola Cidadã, fundamenta-se no estabelecimento de princípios, diretrizes e propostas de ação de curto, médio e longo prazos, para organizar o trabalho eco-político-pedagógico e, por conseguinte, todo o currículo da escola, neste caso, visando a garantir a qualidade sociocultural e socioambiental do processo educativo e das aprendizagens dos alunos, formando-os para o exercício da cidadania ativa.


Entendemos que o IDEB, que ainda deve aperfeiçoar a sua metodologia de cálculo, pode contribuir para o alcance dos objetivos educacionais previstos no PEPP da escola, mas não pode se tornar a única referência de qualidade da educação escolar, até porque, se assim acontecer, ele se tornará nada mais do que o índice de um ranking para comparar o desempenho das escolas, o que o MEC certamente não deseja.


Nada contra a objetivação dos procedimentos de planejamento educacional e escolar, absolutamente necessária à educação transformadora e emancipadora. Mas a busca de objetivos e de resultados da melhoria do IDEB das escolas não pode prescindir de processos mais participativos, democráticos e plurais de decisão no âmbito das unidades educacionais, o que garante uma avaliação também subjetiva, analítica e reflexiva, que considera a manifestação das diferentes diferenças e das múltiplas semelhanças culturais, educacionais, econômicas, afetivas, de gênero, ambientais, políticas, entre outras, presentes na escola e na comunidade. Isso permite e garante o estabelecimento crítico de objetivos e metas por parte dos diversos segmentos escolares, incluindo a comunidade e a expressão cultural das populações que, direta ou indiretamente, convivem e sentem os impactos das atividades desenvolvidas na escola.


O PEPP, como o próprio PDE Escola, preocupa-se com o alcance dos objetivos e metas educacionais que emancipe mais as pessoas, que lhes permita aprendizagens mais significativas. Daí serem também complementares e exigirem processos de reconhecimento da realidade escolar e educacional que possam se transformar em indicadores de processos e resultados passíveis de avaliação.


O processo de elaboração do PEPP da unidade educacional, na perspectiva da Educação Cidadã, como temos orientado neste curso, contribui de forma dialógica, crítica e participativa para que a escola atenda às exigências de elaboração do PDE Escola, sem que estes processos sejam concorrentes entre si. Na verdade, são complementares na medida em que buscam garantir a participação e a elaboração coletiva do projeto, sua execução e avaliação permanente, visando às aprendizagens cidadãs e efetivamente significativas .

XVIII – Etapas de elaboração do PEPP – sugestões práticas

Ao indicarmos possíveis etapas de elaboração do Projeto Eco-Político-Pedagógico de uma determinada unidade educacional, observamos que estamos falando do “documento do PEPP” em determinada etapa de sua construção histórica, que, enquanto tal, pode ter seus resultados registrados num documento. Nesse sentido, nem estas etapas, nem a possível estrutura do PEPP, devem ser entendidos como “camisas de força”, que devam ser cumpridos à risca, como se fossem receitas. Bem ao contrário, aceitamos o desafio de indicar estas possíveis etapas, mas sempre lembrando que cada escola é uma escola diferente da outra e que, por isso mesmo, deverá desenvolver o seu PEPP levando em consideração as orientações específicas de cada rede ou sistema de ensino e, principalmente, as suas próprias vivências, o seu ritmo, o seu tempo político-pedagógico e institucional.


Nosso desafio aqui é orientar uma possível sistematização para a elaboração do PEPP. Assim, sintética e indicativamente, indicamos as seguintes etapas :


1. Identificação de cada segmento na prática do planejamento escolar – garantir a participação de todos os segmentos escolares nesse processo, criando-se diferentes tempos e espaços para que ele se efetive. O direito à participação deve ser garantido também às associações de bairro, entidades comunitárias e demais organizações da sociedade civil. Todos os sujeitos devem saber identificar as suas atribuições nesse processo, até porque tudo não deve ser feito por todos a todo momento.


2. Definição dos princípios, objetivos e características da UE – analisar objetivamente as necessidades e as experiências da comunidade escolar, de sua rede de ensino e, pautados na legislação vigente, escrever, conjuntamente, os princípios, objetivos e características da própria escola, visando à sua melhor organização administrativa, pedagógica e financeira.


3. Construção coletiva do marco referencial – discutir com a comunidade escolar e explicitar: a) como entendemos o mundo em que vivemos; b) quais são as utopias que nos movem neste mundo?; c) qual é a escola dos nossos sonhos?


4. Proposta de ação – com base nos levantamentos precedentes, realizar uma ampla “leitura do mundo” da realidade escolar/comunitária, para que se tenha clareza dos seguintes aspectos: a) avaliação dos resultados escolares dos anos anteriores; b) principais dificuldades encontradas; c) recursos já aplicados na escola, principais fontes e análise se foram ou não suficientes; d) análise da gestão democrática da escola e da ação de seus vários colegiados; e) com base nos dados levantados, definir os principais problemas concretos observados e levantar sugestões de como a escola pretende superar estes problemas, item por item. f) estabelecer a continuidade do processo de “leitura do mundo” para o aprofundamento de estudo dos problemas verificados; g) definir o que deverá ser feito na escola, estabelecendo prioridades e indicadores de alcance de resultados e respectivas metas.


5. Estrutura referencial do PEPP (apenas indicativa): I – Identificação do projeto; II – Histórico e Justificativa; III – Objetivos gerais e específicos; IV – Metas; V – Desenvolvimento Metodológico; VI – Recursos; VII – Cronograma; VIII – Avaliação; IX – Conclusão (elementos para o Regimento Escolar).
Cada uma das etapas do PEPP exige a organização do trabalho coletivo na escola e a definição de uma equipe relatora, responsável pelas sínteses deste processo. Vencida uma etapa, a equipe relatora sintetiza as contribuições e submete ao coletivo escolar o resultado do seu trabalho, visando à total transparência do processo e à sua necessária dialogicidade. Nesse movimento, dá-se a melhoria do trabalho pedagógico, da gestão da escola e, principalmente, da qualidade das aprendizagens nos termos defendidos tanto pelo PEPP como pelo PDE Escola.

 


Este módulo foi publicado na Revista Direcional Educador - edição 37 - fevereiro/2008