curso livre de
PROJETOS TRANSDISCIPLINARES
Por Ângela Antunes e Paulo Roberto Padilha
angela@paulofreire.org / padilha@paulofreire.org

Módulo 8
XV–Planejamento educacional dialógico:
princípios e possibilidades
XVI –Projeto eco-político-pedagógico: esclarecendo o
conceito, falando das práticas

 

XV – Planejamento educacional dialógico: princípios e possibilidades

Paulo Freire, há exatamente 50 anos, num trecho de sua primeira obra, intitulada Educação e atualidade brasileira - tese de concurso para a cadeira de História e Filosofia da Educação na Escola de Belas Artes de Pernambuco, Recife (1959, pg. 8), escreveu o seguinte:

Todo planejamento educacional, para qualquer sociedade, tem de responder às marcas e aos valores dessa sociedade. Só assim é que pode funcionar o processo educativo, ora como força estabilizadora, ora como fator de mudança. Às vezes, preservando determinadas formas de cultura. Outras, interferindo no processo histórico, instrumentalmente. De qualquer modo, para ser autêntico, é necessário ao processo educativo que se ponha em relação de organicidade com a contextura da sociedade a que se aplica (…) A possibilidade humana de existir – forma acrescida de ser – mais do que viver, faz do homem um ser eminentemente relacional. Estando nele, pode também sair dele. Projetar-se. Discernir. Conhecer. (Freire, 1959, pg. 8).


Vejamos que o autor, ao tratar de planejamento, utiliza palavras e terminologias que, certamente, em outros momentos da história – antes e depois deste seu texto – sequer poderiam ser utilizadas: valores da sociedade, mudança, processo histórico e educativo, relação, ser mais, ser relacional... discernir, conhecer. Isso nos faz pensar no planejamento, desde logo, diferentemente de como esta prática foi tratada e, portanto, entendida, na própria história da educação brasileira e latinoamericana: uma ação técnica, a ser realizada apenas por especialistas.


Por muito tempo a educação importou e foi pautada com base em modelos centralizadores de planejamento e, por conta da ambiguidade do próprio termo e do modelo político altamente autoritário, antidemocrático e injusto imposto nos anos de ditadura militar na América Latina, o que ficou na cabeça de muitos educadores foram os modelos empresariais de planejamento, nascidos da lógica da Administração científica proposta por Taylor. Isso deu origem à histórica divisão do trabalho e ao nível cada vez maior de especialização, continuada por Fayol, Henry Ford, entre outros teóricos que acabaram influenciando a administração escolar, conforme ainda hoje acontece em muitas de nossas escolas.


Concepções clássicas, transitivas, mayoistas e neoclássicas de administração, de tradições burocráticas, idiossincráticas e integradoras, deram ênfase, respectivamente, a modelos de planejamento hierarquizados, verticais, excessivamente normatizados, visando à eficácia institucional do sistema, à eficiência individual e ao clima organizacional pragmático . Nossa perspectiva de planejamento, ao contrário destas, é dialógica, com ênfase nos valores culturais e políticos, contextualizados, e com base numa visão interdisciplinar de ação, conforme veremos a seguir.


Toda pessoa faz planos e constrói
seu projeto de vida. E, se alguém não o faz, vive meio sem direção, sem sentido... Dependendo do dia, são tantas as nossas atividades, que chegamos a organizar as nossas ações sistematicamente: tomamos notas e registramos a ordem dos nossos compromissos, a sequência dos afazeres do dia, definindo itinerários, horários, pessoas que não podemos deixar de encontrar, contas que precisamos pagar e, melhor ainda, valores que temos a receber! Acabamos por planejar as nossas ações e até contamos com a ajuda de outras pessoas – da família, amigos, colegas de trabalho etc.
Com estes exemplos, pretendemos mostrar que a atividade de planejar é eminentemente humana e acontece quase sempre na nossa vida. E na escola não é diferente, a não ser pelo seu caráter mais formalizado, organizado, intencional e coletivo. O importante, neste âmbito, é não simplificarmos demais e acharmos que, mesmo ficando parados, como se estivéssemos descansando no conforto da nossa casa, o planejamento ou o projeto vai acontecer porque alguém vai acabar fazendo. Nós somos os sujeitos do processo. Nós somos ou podemos ser, ao mesmo tempo, os planejadores, os executores e os avaliadores do que foi planejado e feito. Mas, diferentemente do planejamento tecnocrático sobre o qual nos referimos anteriormente, neste caso quem decide não é um especialista. Quem delibera aqui são várias pessoas, os vários segmentos da escola.


Realizar planos e planejamentos educacionais (ao nível do sistema educacional) e escolares, significa exercer uma atividade engajada, intencional, científica, de caráter político, ideológico e isento de neutralidade. Este processo influencia e provoca transformações nas instâncias e nos níveis educacionais que, historicamente, têm ditado o como, o porquê, o para quê, o quando e o onde planejar. Pensar o planejamento educacional e, particularmente, a elaboração do projeto eco-político-pedagógico da escola é, essencialmente, exercitar nossa capacidade de tomar decisões coletivamente.


Não há relação pedagógica sem diálogo amoroso e conflitivo, da mesma forma que não há relação amorosa que resista à falta do diálogo e à ausência do conflito. Como nos ensina Paulo Freire, o diálogo é “o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o ‘pronunciam’, isto é, o transformam, e, transformando-o, humanizam para a humanização de todos.” (FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. 8. Ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982. 1982:43).


No contexto da Educação Cidadã planejar só pode se dar com base na gestão democrática, comunitária e compartilhada e nos seus fundamentos (módulo 6 do nosso curso), cuja organização coletiva cabe à direção escolar e ao colegiado escolar (módulo 7), mas a partir do processo de leitura do mundo participativo. E o planejamento educacional dialógico significa a tomada de decisões democráticas, com base no conhecimento coletivo da realidade, considerados os sonhos da comunidade escolar e visando às aprendizagens dos alunos e das alunas, à garantia de seus direitos e à convivência humana mais pacífica, solidária, cooperativa e sustentável, em todos os sentidos, como veremos a seguir.

XVI – Projeto eco-político-pedagógico: esclarecendo o conceito, falando das práticas

Elaborar o projeto eco-político-pedagógico (PEPP) da escola é um processo pedagógico em si mesmo. Ele amplia a nossa convivência humana e as nossas relações na escola e, potencialmente, aproxima a comunidade cada vez mais da instituição escolar.


Dependendo do envolvimento dos segmentos escolares, consegue-se, nesse processo, melhorar muito a dinâmica escolar e até mesmo se realizar intercâmbios de experiências, saídas a campo, festas e encontros educacionais, escolares, culturais, esportivos, comunitários. Com isso, a escola ganha a vida e a (nossa) vida ganha a escola.


A dimensão “eco” do projeto eco-político-pedagógico sinaliza e enfatiza a indispensável atenção à educação ambiental, ecológica, ecopedagógica em todos os processos educacionais. Com isso, valorizamos a sustentabilidade ambiental, econômica, cultural, sexual, entre outras, as nossas relações com todo o ecossistema (toda forma de vida existente no planeta) e ainda ressignificamos as nossas práticas em relação a tudo aquilo que tem a ver com o processo educacional.


O PEPP, em termos conceituais, pode ser entendido como um processo de mudança, com base nas experiências do passado e nas vivências do presente, visando ao futuro sustentável das atividades educacionais que acontecem na localidade, mas que influenciam a vida do próprio planeta.


Falando de práticas, na elaboração do PEPP, que é necessariamente coletiva, partimos da organização da escola, de forma democrática e participaiva e, em seguida, estabelecemos princípios, diretrizes e propostas de ação para melhor sistematizar e ressignificar as atividades desenvolvidas pela unidade educacional como um todo. Ao elaborar o PEPP as pessoas ressignificam as suas experiências, refletem as suas práticas, resgatam, reafirmam, atualizam e vivenciam novos valores na troca com os valores de outras pessoas, explicitam os seus sonhos e utopias, demonstram os seus saberes, dão sentido aos seus projetos individuais e coletivos, reafirmam as suas múltiplas identidades, suas diferenças, semelhanças e estabelecem novas relações de convivência, indicando um horizonte de novos caminhos, possibilidades e propostas de ação. Decidem o seu futuro.


É importante, em termos metodológicos, levantar as experiências da escola e refletir sobre elas para, em seguida, fundamentá-las. As ações propostas e executadas no PEPP devem ser objeto de avaliação permanente para que os vários segmentos escolares possam saber o que já melhorou e o que ainda pode melhorar na escola e na comunidade. E isso exige formação continuada dos trabalhadores em educação e de todos os segmentos representativos da comunidade.
Quem gosta de frequentar uma escola suja, feia, depredada, pichada, cheia de muros e de grades? Sentir-se bem na escola exige cuidado constante com a sua estrutura física, com a conservação das suas dependências. Esta tarefa é do Estado, mas também é da comunidade escolar, a quem interessa contar com espaços que viabilizem melhores condições de aprendizagem e convivência cultural, esportiva, cultural e educacional.


Importância ainda maior devemos dar à qualidade e à beleza das relações pessoais, interpessoais e grupais que lá se estabelecem, nos seus diferentes espaços. E se a escola não conta com esses espaços, razão maior possui para que se dedique a reivindicá-los e, por conseguinte, a conquistá-los. Mas nenhuma conquista ou mudança fundamental acontece gratuitamente, sem esforços e sem conflito. Aí está a dimensão política do ato educativo. Daí a necessidade do projeto eco-político-pedagógico, processo no qual registramos tais demandas, criando movimentos favoráveis ao alcance das mudanças desejadas. Daí, também, cada pessoa resgatar o prazer de participar do processo de mudança da UE porque, ao fazê-lo, estará mudando a si mesma e construindo também, de certa forma, o seu projeto eco-político-pedagógico pessoal, o que contribui para o fortalecimento de sua própria identidade.


Mas como fazer isso? Como nos organizarmos para conseguir a participação da comunidade e de todos os segmentos escolares? Na perspectiva da Educação Cidadã temos defendido a formação continuada dos diversos segmentos para a participação e para a gestão compartilhada. Isso significa o fortalecimento da gestão democrática, ampliando não apenas a consulta à comunidade, mas, sobretudo, o seu envolvimento cotidiano nas decisões sobre os diversos fazeres educacionais, através, por exemplo, do maior envolvimento – sempre mais prazeroso, dialógico, aprendente e curioso – nas diversas atividades da UE, através dos seus colegiados (conselhos) escolares, grêmio estudantil, na associação de pais e mestres. É importante potencializar a parceria entre a instituição educativa, a comunidade e suas respectivas associações para que juntas, possam melhorar o trabalho da escola e, fundamentalmente, a aprendizagem dos alunos.


Muito importante no processo de elaboração do PEPP é também o princípio da lisura nos processos de definição da gestão e agilização das informações que circulam na instituição escolar, no âmbito de todas as suas atividades.


O PEPP da escola deverá estabelecer objetivos e metas pensados a curto, médio e longo prazos, o que pode significar uma duração até mesmo superior a 10 anos, dependendo da capacidade de planejamento da própria UE. Normalmente, para se elaborar o PEPP, utiliza-se entre 6 a 12 meses, dependendo muito das experiências prévias da unidade educacional e dos processos de educação continuada da comunidade escolar.


Para finalizar, é importante destacar que o PEPP, num determinado momento de sua (re)construção, transforma-se num documento que pode ter uma estrutura básica, que varia de acordo com o contexto educacional onde se localiza a escola. A este respeito, existe na atualidade ampla bibliografia, como já temos citado em diversas oportunidades. O importante, mesmo, será levar em consideração as orientações específicas de cada rede ou sistema de ensino e respeitar as suas próprias vivências, o seu ritmo, o seu tempo político e institucional, os elementos facilitadores e dificultadores da sua própria construção.


No próximo módulo deste curso continuaremos a discutir este assunto, dando maiores detalhes sobre a elaboração do PEPP e dialogando, inclusive, com o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), proposto pelo MEC. Até lá.

 


Este módulo foi publicado na Revista Direcional Educador - edição 37 - fevereiro/2008