curso livre de
PROJETOS TRANSDISCIPLINARES
Por Ângela Antunes e Paulo Roberto Padilha
angela@paulofreire.org / padilha@paulofreire.org

Módulo 7
XIII – Colegiados escolares: coletivos instituintes da
Educação Cidadã e Integral
XIV – Como organizar o trabalho dos colegiados
escolares: a contribuição dos diferentes segmentos


I - Introdução
XIII – Colegiados escolares: coletivos instituintes da Educação Cidadã e Integral Caro leitor e cara leitora, afirmamos, no artigo anterior, que não basta estar na escola. É preciso aprender na escola. E aprender para viver de forma justa, solidária, promovendo a construção de sociedades sustentáveis.


Cada vez mais, as políticas de educação se fazem presentes não só nos sistemas formais de ensino, mas também em outras políticas setoriais (cultura, esporte, meio ambiente, etc.). Há uma valorização crescente da complementaridade entre serviços e atores sociais. Buscam-se articulações e relações mais orgânicas entre programas e serviços públicos estatais e não estatais, de iniciativa da comunidade e sociedade civil, na perspectiva do desenvolvimento local visando a potencializar os espaços e tempos educativos no contexto da cidade e do município. A governabilidade social passou a depender, cada vez mais, da participação dos diversos sujeitos do fazer social: o Estado, a sociedade civil, a comunidade e o próprio público beneficiário da ação pública.


Ao invés de decisões tecnocráticas e verticalizadas, muitos governos municipais vêm estabelecendo amplos e profundos processos participativos para tomada de decisões. O município vem sendo chamado à construção coletiva das políticas públicas, envolvendo todas as frentes de atuação de uma administração. Iniciativas multisetoriais nos territórios da cidade, tomando a realidade local, seus sujeitos e identidades, vêm sendo pauta inicial das situações de aprendizagem. Prova disso, só para darmos um exemplo de uma iniciativa muito recente, é a criação da Rede Social Município que Educa, “uma rede de municípios articulados em torno dos princípios da Educação Cidadã e da Cidadania Planetária. As pessoas e instituições que dela participam, além de acompanhar e colaborar com a gestão pública educacional dos municípios, preocupam-se também com o conjunto da administração e do desenvolvimento local, caracterizando-se por realizar abordagens multisetoriais. Nesse sentido, seu foco é mais amplo, pois se volta para a garantia de direitos em toda a municipalidade, com base na observação permanente da gestão pública” (Padilha, 2009, pg. 7).


O processo de democratização do Estado, visando à substituição da concepção hegemônica de valores e interesses privados, por valores e interesses públicos, requer criar, na educação, uma esfera pública não estatal que possibilite ao município discutir e influenciar a construção da política pública para a educação. Isso significa criar espaços de participação, transformando a escola estatal municipal em uma escola pública municipal, numa instituição realmente pública a serviço da formação, da conquista e do exercício da cidadania. Mas, para além da educação escolar, como temos defendido neste curso, cabe-nos criar as condições efetivas para a consolidação de processos e práticas de educação integral, também no âmbito da educação não escolar, alcançando assim os vários setores da comunidade e da sociedade. Trata-se, portanto, de reconhecer e valorizar as diferentes iniciativas tanto da sociedade civil como do Estado, dos diferentes conselhos municipais, dos seus respectivos fóruns e das diversas instâncias de participação social da municipalidade, com o que se exercita, na prática, o exercício da democracia representativa e indireta, bem como da democracia participativa (direta), articulando-as e integrando-as com base numa intencionalidade político-pedagógica.


Como explica o professor Ladislau Dowbor, “a nossa cidadania se exerce em diversos níveis, mas é no plano local que a participação pode se expressar de forma mais concreta”. (Dowbor, 2006, p. 2). Nesse contexto, os colegiados escolares podem desempenhar um papel fundamental para a escola.


Quando se fala em gestão, fala-se em como a escola é administrada, em como ela organiza o seu trabalho na parte administrativa, financeira e pedagógica para alcançar os objetivos a que se propõe. Gestão tem a ver com a organização e o funcionamento da escola a fim de alcançar os objetivos a que se propôs no seu projeto eco-político-pedagógico. Mas como organizar os colegiados de forma a que sua atuação vá ao encontro desse novo sentido da educação?
XIV – Como organizar o trabalho dos colegiados escolares: a contribuição dos diferentes segmentos Participação, cidadania, democracia e autonomia são fundamentais para a nova arquitetura da gestão pública. Se a escola se pretende um espaço educacional por meio do qual educandos e educandas se apropriam do conhecimento historicamente acumulado, tendo como ponto de partida a prática social concreta e a realidade onde esta prática acontece, objetivando a humanização e a viabilização da convivência justa, solidária e sustentável, a escola não pode estruturar o trabalho e as relações humanas em bases autoritárias. Todos os sujeitos são importantes: o diretor, a vice-diretora, a coordenadora pedagógica, o pessoal de apoio, os pais, os representantes da comunidade, os alunos, os familiares, os representantes de equipamentos públicos do bairro, os representantes do Conselho Tutelar, de outros Conselhos presentes no bairro. A escola pode integrar seu trabalho ao dos postos de saúde, dos centros culturais, das bibliotecas, das organizações não governamentais, das universidades para somar forças e envolver mais pessoas no propósito de oferecer uma boa formação para os alunos. Estes esforços cabem a toda a municipalidade e dependem de uma ação concreta de todos os cidadãos e de todas as cidadãs que vivem ou que atuam no município. Mas, no âmbito da educação escolar, algumas práticas já consolidadas e experiências já vivenciadas podem servir de referência para a melhor organização e funcionamento dos colegiados escolares. Vejamos algumas dicas:

• É fundamental que o processo de eleição respeite os princípios democráticos, garantindo a escolha dos representantes pelos seus próprios pares.
• Realizar campanhas de esclarecimento sobre o que são os colegiados, sua estrutura e funcionamento, seus objetivos e atribuições de forma a que todos tenham clareza de sua importância.
• Uma vez constituídos, envolver todos os segmentos na definição das pautas das reuniões dos colegiados e refletir sobre elas antes das reuniões. As pautas devem contemplar não só as necessidades da escola, mas também as preocupações dos pais/mães, dos alunos/alunas, de lideranças do bairro, enfim, de todos que fazem parte da comunidade local (externa e interna à escola).
• Antes da reunião, discutir a pauta com os pares (cada segmento, separadamente, alunos, pais, professores, deve refletir sobre a pauta detalhadamente) e, dependendo do assunto, ampliar a discussão em outros espaços da comunidade, aproximando sempre mais escola do bairro e vice-versa.
• Procurar estar atento às datas e ao horário das reuniões dos colegiados, tomando o cuidado de realizá-las num período acessível à maioria.
• Por meio das atas é possível registrar a história da atuação dos colegiados e acompanhar o trabalho que vem sendo desenvolvido por eles.
• As atas devem seguir algumas normas para que tenham valor jurídico. Nelas devem estar registrados os seguintes dados: o número que identifica a reunião (primeira, segunda...); a data e o horário em que ocorreu; o local; o objetivo (a pauta); as discussões que foram feitas (quem falou o quê, quem propôs o quê, o que foi aprovado, etc.), a votação e os responsáveis pelos encaminhamentos das deliberações.
• Após as reuniões, as atas devem ser lidas e assinadas por todos os presentes.
• As atas podem ajudar muito na avaliação do desempenho dos colegiados. Através dos registros, podemos, por exemplo, avaliar o nível de participação dos diferentes segmentos, a natureza dos assuntos discutidos, etc.
• O local das reuniões deve favorecer a participação.
• O direito de fala de todos os participantes deve ser respeitado.
• As propostas apresentadas devem ser consideradas e votadas.
• Atribuir responsabilidades. Não basta avaliar, reconhecer os limites e dificuldades da prática. É fundamental se corresponsabilizar pela busca de soluções e pela sua concretização.
• Não mudar de assunto sem que o anterior tenha sido resolvido. As reuniões dos colegiados não podem se caracterizar por um conjunto de falas a partir das quais nada se encaminha. É preciso discutir, decidir e encaminhar cada item da pauta.
• O horário e o tempo de duração das reuniões devem ser definidos coletivamente. O horário a ser escolhido deve levar em consideração a possibilidade de participação de pais e de alunos que trabalham.
• A escola deve oferecer condições para que os representantes possam consultar seus pares. Para isso, cada segmento pode criar fórum próprio de discussões.
• Para se tomar decisões, é necessário que se tenha acesso a informações sobre o assunto a ser decidido. Sem uma visão global dos problemas, corre-se o risco de resolvê-los parcialmente.
• Criar canais de fácil comunicação entre os diversos segmentos da comunidade escolar.


Referências bibliográficas
ANTUNES, Ângela. Aceita um conselho: como organizar os colegiados escolares. São Paulo: Cortez, 2002.
DOWBOR, Ladislau. Educação e desenvolvimento local. São Paulo, 03 abr. 2006. Disponível em: <http://www.dowbor.org.br>. Acesso em 23 jan. 2009.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
GADOTTI, Moacir. Educação municipal e poder popular. Revista Educação Municipal. São Paulo, Cortez/Undime/Cead, ano 2, n. 4, p. 60-66, maio 1989.
_______. Perspectivas atuais da educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000
PADILHA, Paulo Roberto. Município que Educa: nova arquitetura da gestão pública. São Paulo, Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2009 (Série Cadernos de formação;2).
PARO, Vitor Henrique.Gestão da escola pública: a participação da comunidade. In: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, nº. 174, p.255-290, maio-ago. 1992.
__________. A natureza do trabalho pedagógico. In: Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, v. 19, n. 1, pp. 103-109, jan./jun. 1993.

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Este módulo foi publicado na Revista Direcional Educador - edição 37 - fevereiro/2008