curso livre de
PROJETOS TRANSDISCIPLINARES
Por Ângela Antunes e Paulo Roberto Padilha
angela@paulofreire.org / padilha@paulofreire.org

Módulo 3
V – Nova arquitetura da gestão pública: o Município
que educa
VI – A escola como gestora social do conhecimento


I - Introdução

Terceiro módulo do nosso curso. Já apresentamos algumas características da Educação Cidadã, que visa à formação crítica para o exercício da cidadania ativa. Esclarecemos que a Educação Integral é fundamento para o que chamamos de tempo ou horário integral e explicamos que, efetivamente, o Estado e as instituições da sociedade civil e, evidentemente, as pessoas, respeitados os seus diferentes saberes e experiências, são sujeitos que ensinam e aprendem.


Neste curso, ao buscarmos sentido e significado para a educação que praticamos, estamos no movimento de quem reflete a sua própria prática e quer contribuir para a criação de uma nova arquitetura de gestão pública.


Particularmente, neste módulo, apresentamos a Rede Município que Educa, que pretende contribuir para o melhor atendimento das necessidades das populações locais abrangidas pela municipalidade, sempre considerando a indispensável e mesmo inevitável interconexão com tudo o que acontece no planeta. Discutiremos, ainda, como a escola e toda a comunidade escolar podem contribuir para a gestão social do conhecimento. Veremos que elas, de forma sistemática e coletiva, criam as condições para a construção de novos conhecimentos e saberes que atendam às exigências do Século XXI, ou seja, às necessidades educacionais do presente e do futuro.


Sigamos neste diálogo fecundo e provocador, como diria Paulo Freire.


V – NOVA ARQUITETURA DA GESTÃO PÚBLICA: O MUNICÍPIO QUE EDUCA


Uma “nova arquitetura” tem a ver com inovação e mudança, e isso acontece sempre a partir do que já existe. Se inovamos, acrescentamos ao existente algumas características, melhorando a forma de fazer, de realizar, de produzir. Ao inovar e provocar mudanças, sem que o percebamos, melhoramos também o nosso próprio jeito de “ser”.


Quando mudamos algo, alteramos mais radicalmente o objeto da nossa ação, mexendo com as raízes ou com a estrutura do que deve ser modificado. É nessa perspectiva que nos colocamos, ao refletirmos as condições atuais da gestão pública e ao propormos a organização de uma rede articulada, nacional e internacionalmente: a Rede Município que Educa, que visa à melhor qualidade de vida no município, a potencializar os seus espaços educativos, à democratização do poder municipal e ao desenvolvimento local, com base em relações éticas e transparentes entre estado e sociedade civil.


Para terem sentido e significado, inovação e mudança devem nascer de um desejo, de uma necessidade, de uma indignação ou de algum problema que nos desafie e que necessite ser superado e resolvido. Paulo Freire falava de “justa ira”, de indignação, que nos levaria à busca de alternativas, de mudanças, enquanto reação radical diante, por exemplo, de quaisquer manifestações de preconceito ou de injustiça.


A proposta ora apresentada é, na perspectiva acima referida, uma atitude radical e ética para que, no âmbito do município, todo e qualquer tipo de preconceito, de injustiça social ou de má gestão da política pública sejam enfrentados com base em decisões democráticas e com participação ativa da população.


Os desafios desta rede são municipais, mas ultrapassam a dimensão do município, instância dotada de personalidade jurídica, que possui certa autonomia administrativa e está organizado em órgãos políticos e administrativos. No Brasil, a partir da Constituição Federal de 1988, os municípios têm autonomia para criar os seus próprios sistemas municipais, o que, segundo Moacir Gadotti, situa o município “como espaço real de poder. (…) que não é mais tratado como mero executor de decisões tomadas em outras instâncias do poder”. (Gadotti, 2000, pg. 175). Os municípios, como acontece também em outros países, devem funcionar em regime de colaboração com Estado e governo federal.


A Rede Município que Educa não se restringe a acompanhar e a colaborar com a gestão pública educacional de um município, por se preocupar com o conjunto da administração e do desenvolvimento local. Seu foco é mais amplo, pois se volta para a garantia de direitos em toda a municipalidade, com base no acompanhamento permanente da gestão pública. Nesse sentido, na rede, todos os programas, projetos e iniciativas governamentais e não governamentais serão objeto de reflexão, estudos, análises, socialização e intercâmbio de experiências, mas potencializando o caráter educativo de cada iniciativa do poder local. Toda a municipalidade aprende sobre o município, decide sobre as suas prioridades, acompanha e avalia a execução de seus projetos. Conforme escreve o professor Ladislau Dowbor “é interessante constatar que quanto mais se desenvolve a globalização, mais as pessoas estão resgatando o espaço local e buscando melhorar as condições de vida no seu entorno imediato. Na realidade, a nossa cidadania se exerce em diversos níveis, mas é no plano local que a participação pode se expressar de forma mais concreta. A grande diferença, para municípios que tomaram as rédeas do próprio desenvolvimento, é que em vez de serem objetos passivos do processo de globalização, passaram a direcionar a sua inserção segundo seus interesses. Promover o desenvolvimento local não significa voltar as costas para os processos mais amplos, inclusive planetários: significa utilizar as diversas dimensões territoriais segundo os interesses da comunidade.” (Dowbor, 2006, pg. 2).


Enfatizamos que no contexto deste módulo do nosso curso, a Rede Município que Educa considera o município em sua ampla dimensão territorial, não apenas a cidade (a urbes), nem tampouco apenas os setores rurais, o campo, muito menos apenas as periferias das cidades. O interessante é que cada cidadã, que cada cidadão, possa (re)descobrir os vários espaços e tempos do território onde vive, admirando-o nas suas paisagens, na sua boniteza – como, por exemplo, nas suas riquezas e belezas naturais, a cultura local, as praças da cidade, a transparência das águas dos rios, o respeito e o cuidado com as crianças e com as pessoas idosas, etc. Mas, também, estranhando-o quando perceber a necessidade de superar desafios e problemas que, há muito tempo, continuam ali sem solução... por exemplo, uma biblioteca sem livros, uma escola depredada, hospitais superlotados, desemprego crescente, violência aumentando, falta de segurança, de infra-estrutura local, falta de escolas, de universidades, de perspectivas de vida, etc. Como falamos contemporaneamente, trata-se de pensarmos na dimensão “rurbana”, ou seja, na interconexão das problemáticas existentes entre a zona urbana e rural, mesmo reconhecendo a existência de especificidades de cada uma delas. Como também afirma Ladislau Dowbor, “onde havia a divisão nítida entre o 'rural' e o 'urbano',
GADOTTI, Moacir. Perspectivas atuais da Educação. Porto Alegre, Artmed, 2000. Ver, especialmente, os capítulos 15 e 16, intitulados, respectivamente, “O sistema municipal de educação: estratégias para a sua implantação” e “Da municipalização do ensino ao sistema único e descentralizado de educação básica”.


Vide: DOWBOR, Ladislau. Educação e desenvolvimento local. www:dowbor.org.br Dowbor, Ladislau. Artigo intitulado Educação e Desenvolvimento Local. São Paulo, 03/04/2006).

aparece o que tem sido chamado de 'rurbano'. No território assim constituído as pessoas passam a se identificar como comunidade, a administrar conjuntamente problemas que são comuns (…) a qualidade de vida e o desenvolvimento vão depender cada vez mais da capacidade inteligente de organização das complementaridades, das sinergias no interesse comum” Vivemos num “mundo educador”, que “exige um nível cuidadoso e aprofundado de articulações políticas, socais, culturais, ambientais e econômicas, visando à conquista de um melhor atendimento da população pelas organizações governamentais, não-governamentais e por todas as instituições da sociedade, não restringindo esse alcance às classes médias ou às elites sociais que, historicamente, são as que consomem todos os 'serviços' prestados pelo Estado e pelo mercado e que, por isso mesmo, têm tido maior presença nas decisões sobre as questões relacionadas às políticas públicas. (Padilha, 2007, pg. 85). E, no âmbito do município, é necessário a realização de projetos intersetoriais, intersecretariais e também inter-regionais, que mobilizam as diferentes forças políticas e sociais e âmbitos das comunidades e da sociedade, visando justamente ao alcance dos objetivos de uma educação popular comunitária, não formal, formal, cidadã e planetária. A práxis da Educação Cidadã e da Educação Integral não se limita apenas à escola, pois ela implica na construção, no fortalecimento e na ampliação de redes de comunicação, de programas e projetos que busquem articular, organizar e aproximar o conjunto de ações e experiências educacionais em âmbito municipal. Trata-se de enfatizar princípios e valores que fundamentam uma lógica de poder transformadora, libertadora, dialógica, radicalmente democrática, sustentável, inclusiva, conectiva, informativa, comunicativa, plural, intertranscultural e intertransdisciplinar, fortalecedora do poder local.
No contexto da 6ª Edição do Fórum Mundial de Educação e da 9ª edição do Fórum Social Mundial em Belém-Pará, de 26/01/2009 a 01/02/2009, a “Rede Município que Educa” foi oficialmente lançada.

Ela nasce de movimentos históricos e de esforços acumulados para melhorar a qualidade de vida e a qualidade sociocultural e socioambiental da educação das populações que convivem e constroem suas histórias e a história da comunidade, da localidade, da municipalidade, em conexão com o que se passa em todo o planeta. Você, leitor e leitora, pode fazer parte desta rede e fortalecê-la, inscrevendo o seu município e participando ativamente deste movimento, começando por refletir as suas práticas, os desafios da sua escola, da sua comunidade e do seu município.


Em síntese: a Rede Município que Educa é uma rede de municípios articulados em torno dos princípios da Educação Cidadã e da cidadania planetária para alcançar vários objetivos, entre os quais, fortalecer e potencializar os espaços educativos e formativos das pequenas, médias e grandes municipalidades, integradas e em permanente
Dowbor, Ladislau. Artigo intitulado Educação e Desenvolvimento Local. São Paulo, 03/04/2006).


PADILHA, Paulo Roberto. Educar em todos os cantos: reflexões e canções por uma educação intertranscultural. São Paulo, Cortez/IPF, 2007.


Os conceitos, fundamentos, princípios e valores apresentados neste texto foram discutidos durante a Mesa “Município que Educa”, das 8h30 às 12h, no contexto do Fórum Social Mundial de Belém – Pará, onde foi lançada a Rede Município que Educa. Os temas e os palestrantes foram, respectivamente: Município, Educação e sustentabilidade (Moacir Gadotti, IPF), A concepção da proposta Município que Educa: nova arquitetura da gestão pública municipal (Paulo Roberto Padilha, IPF); Eixos da Educação Cidadã na perspectiva do Município que Educa (Ângela Antunes, IPF); Diversidade Cultural no Município que Educa (Marilândia Frazão, representando a Secretaria Municipal de Educação de Osasco, SP); Estado e Regime de Colaboração com o Município que Educa: uma experiência em EJA (Maria de Jesus Gaspar Leite – Secretária Adjunta de Projetos Especiais do Estado do Maranhão); Municípios Educadores Sustentáveis (Carlos Rodrigues Brandão, IPF)
Para outras informações sobre esta rede e também sobre como é possível dela participar, entre em
cooperação e intercâmbio de experiências entre si, criando a possibilidade local da autogestão em redes de colaboração solidária – educacionais, culturais, ambientais, econômicas, étnicas, raciais, colaborando para a gestão mais participativa e transparente das políticas municipais, incorporando toda essa experiência à vida cotidiana da escola, ao seu currículo e às práticas de todos os segmentos e sujeitos escolares e comunitários.

VI – A ESCOLA COMO GESTORA SOCIAL DO CONHECIMENTO

A gestão social do conhecimento representa, numa perspectiva emancipadora, a ressignificação de como as aprendizagens acontecem na escola, principalmente para superar a prática da “educação bancária”, puramente transmissora, como, infelizmente, ainda acontece nos dias atuais. Isso significa trabalhar para a construção de novos conhecimentos, de um novo currículo, que considere, desde o início do processo de ensino e aprendizagem, antes mesmo de se falar em conteúdos científicos, as experiências e os saberes prévios dos alunos e das alunas, criando espaço para o diálogo entre as diferentes culturas, para que as relações humanas se estabeleçam em sala de aula e na escolar, garantindo a aproximação tão importante dos saberes informais, não formais e formais. Assim a escola fica mais alegre, prazerosa e aprendente. Isso é importante porque se a escola não criar situações de curiosidade, de interesse e de novas descobertas pelos alunos e até mesmo pelos professores, ela pode se tornar um espaço que dificulta as aprendizagens, ao invés de incentivá-las. Isso é gerir socialmente o conhecimento: incluir no currículo da escola a vida dos/as alunos/as.


Na verdade, a gestão social do conhecimento representa a incorporação ao currículo da escola das questões demandadas pelas comunidades aprendentes, para além dos conteúdos “tradicionais” e do ranço autoritário que, ainda hoje, confunde educação com treinamento, disciplina com doutrina, organização com burocracia.


Na perspectiva da Educação Cidadã o conhecimento nasce das relações humanas contextualizadas, valorizando as experiências locais e planetárias de todos os sujeitos aprendentes e ensinantes. As aprendizagens resultam, assim, da mobilização das emoções, da razão, da sensibilidade, da espiritualidade, da técnica, da ciência, das artes e da somatória de diferentes saberes. Exige-se, neste processo, o conhecimento da realidade local, o respeito e a valorização das diversidades – culturais, raciais, étnicas, sexuais, etc., o reconhecimento da dimensão política do ato educativo, a utilização de múltiplas linguagens artístico-culturais ao “fazermos educação” e, principalmente, a organização democrática e participativa dos processos de planejamento e avaliação de tudo o que se passa na escola. Gerir socialmente o conhecimento na escola é, portanto, incentivar aprendizagens mais significativas, curiosas e aprendentes entre todos os sujeitos escolares, como vimos anteriormente, no módulo 2, item III deste curso.


Falamos de currículo, de gestão, de planejamento e de avaliação – que, na verdade, constituem os principais eixos da Educação Cidadã e da Educação Integral, que estudaremos no próximo módulo. Contamos com você para continuar este processo de fortalecimento da Educação Cidadã, da Cidadania Planetária e, agora, da Rede Município que Educa.

Para outras informações sobre esta rede e também sobre como é possível dela participar, entre em contato com o Instituto Paulo Freire: ipf@paulofreire.org

Ângela Antunes é mestre e doutora em Educação pela FE-USP, pedagoga e Diretora Pedagógica do Instituto Paulo Freire. Autora do livro Aceita um Conselho? Como organizar o colegiado escolar.(SP, Cortez-IPF, 2002). E-mail: angela@paulofreire.org

Paulo Roberto Padilha é mestre e doutor em Educação pela FE-USP, pedagogo, músico e Diretor de Desenvolvimento Institucional do Instituto Paulo Freire. Autor dos livros: Educar em Todos os Cantos (SP, Cortez-IPF, 2007), Currículo intertranscultural (SP, Cortez-IPF, 2004) e Planejamento dialógico (SP, Cortez-IPF, 2001). E-mail: padilha@paulofreire.org
Site do IPF: www.paulofreire.org

 


Este módulo foi publicado na Revista Direcional Educador - edição 37 - fevereiro/2008