curso livre de
PROJETOS TRANSDISCIPLINARES
Por Ângela Antunes e Paulo Roberto Padilha
angela@paulofreire.org / padilha@paulofreire.org

Módulo 2
III – Sujeitos da Educação Integral e da Educação
Cidadã
IV-Somos todos/as educadores/as e trabalhadores/as
em educação?


I - Introdução

Caro leitor e cara leitora,

No módulo anterior, apresentamos os conceitos de educação cidadã, de educação integral e de tempo integral. Destacamos alguns dos muitos desafios que nossas escolas ainda enfrentam: incorporar no currículo a dimensão ecopedagógica, a diversidade cultural, a necessária relação entre teoria e prática, entre os saberes formais e informais, a Leitura do Mundo (conhecimento do contexto), o planejamento coletivo e democrático, a avaliação dialógica, entre outros aspectos. Terminamos nosso diálogo perguntando-nos sobre os sujeitos da Educação Integral e da Educação Cidadã e se a educação, no sentido amplo da palavra, é tarefa e responsabilidade apenas do professor que está em sala de aula.


Neste módulo refletiremos sobre os sujeitos da educação integral e da educação cidadã. Quando tratamos da educação integral, a quem cabe a responsabilidade da educação? No âmbito da unidade educacional, quem educa? Apenas os professores?


III – SUJEITOS DA EDUCAÇÃO INTEGRAL E DA EDUCAÇÃO CIDADÃ


Retomando a afirmação feita no texto anterior de que “a Escola Cidadã é estatal quanto ao financiamento, comunitária e democrática quanto à gestão, pública e popular quanto à destinação”, insistimos, inicialmente, na responsabilidade do Estado quanto a garantia do direito à educação. A política educacional, na perspectiva da educação cidadã, deve democratizar o acesso e garantir a permanência. Isso significa que não basta ampliar o número de matrículas; é preciso que o aluno permaneça na escola. E, mais do que isso, é preciso, sobretudo, que ele aprenda na escola. Então, um primeiro sujeito fundamental da educação cidadã e da educação integral é o Estado. Sem um governo fortemente comprometido com políticas sociais e com a educação para todos, a educação cidadã e integral fica ameaçada.


Como entendemos a educação? Qual o papel da escola? Dependendo da concepção de escola e de educação que temos, vamos reconhecer alguns sujeitos da educação e ignorar ou desvalorizar outros.


A educação integral e cidadã não visa somente à transmissão de conteúdos, ao acúmulo informacional. Ela visa à formação e ao desenvolvimento humano global. Objetiva a preparação de homens e mulheres tecnicamente competentes, capazes de desempenhar plenamente sua profissão, de viver com autonomia, em busca permanente de sua realização pessoal e profissional, mas, sobretudo, almeja a formação de seres humanos que promovem o bem-viver, a justiça social e a vida sustentável para todos. Seres humanos comprometidos com a felicidade pessoal e coletiva, com respeito aos direitos humanos e a todas as formas de vida. Pessoas que, no seu processo de humanização, tenham acesso a um repertório sociocultural que as prepare mais plenamente para o diálogo com o outro, para ensinar e aprender com o outro, para conviver com a diferença de forma democrática, enriquecedora, solidária e emancipadora.


Isso implica cuidar, no processo da formação humana, dos aspectos biológico-corporais, da sociabilidade, da cognição, do afeto, da amorosidade, da felicidade do ser humano, da ética, dos valores. Esta não é uma tarefa exclusiva dos trabalhadores em educação. É desafio de vários sujeitos. A amorosidade de um pai para com seu filho; a atenção do vendedor de pipoca na porta da escola, ouvindo o pedido da criança, orientando-a sobre o troco; a explicação do inspetor de alunos sobre a necessidade do silêncio e da disciplina, usando argumentos convincentes e conscientizadores junto aos estudantes em vez de ameaças e punições; a merendeira que mostra aos alunos de onde vêm os alimentos, o tempo que leva para preparar as refeições e como as faz; a funcionária da secretaria da escola que sorri e atende de forma gentil a um pedido de uma mãe que precisa do histórico escolar da sua filha; a coerência entre as palavras e as ações dos adultos diante das crianças...pequenos e significativos gestos, olhares, palavras, atitudes que vão criando uma atmosfera de cuidado, de respeito, de afeto, de convívio ético e solidário.


Paulo Freire afirma, em seus textos, que educamos com o corpo inteiro, com a razão e com a emoção, e a partir do contexto do educando, conhecendo o conhecimento que ele traz para a escola. O cognitivo, o afetivo, o conhecimento formal, o conhecimento informal caminham juntos no processo educacional quando se trata de educação integral e cidadã.


Então, caro leitor, entendendo a educação dessa forma, reconhecemos vários sujeitos no processo educacional. A professora possui um papel central, mas ela não educa sozinha. A diretora, a coordenadora pedagógica, a supervisora de ensino, a equipe técnica da secretaria de educação e de outras secretarias de governo também educam. Assim como educam os familiares e outras pessoas e instituições da comunidade, como já vimos anteriormente.


Não educamos apenas por meio dos conteúdos com os quais trabalhamos em sala de aula. Paulo Freire destacava a pedagogicidade do espaço. Lembrava-nos sobre o que e o quanto ensinamos aos nossos alunos se eles se deparam anos seguidos com salas de aula sujas, paredes pichadas, janelas com vidros quebrados, cadeiras e carteiras riscadas ou, por outro lado, se convivem com jardins, hortas escolares, painéis informativos, quadros de avisos, paredes pintadas. Se o espaço ensina, aqueles que dele cuidam também ensinam, também são responsáveis por uma dimensão da educação. Então, desde os engenheiros e os arquitetos que projetam a escola, os políticos que decidem sobre os recursos para a educação, permitindo espaços educacionais bem equipados, até o pessoal da limpeza da escola que a mantém limpa são importantes e contribuem com a educação.


Na escola, alguns sujeitos da educação tradicionalmente são invisibilizados, ignorados, silenciados. Mas, às vezes, estão mais perto dos alunos e convivem mais com eles do que os próprios professores e podem contribuir muito com a educação das crianças, adolescentes e jovens. Se valorizamos algumas vozes (a do diretor, a do professor, a do coordenador pedagógico) e silenciamos outras (inspetor, merendeira, pessoal de apoio, representantes da comunidade), a formação do ser humano na perspectiva da educação integral e cidadã pode estar falhando.


Segundo Moacir Gadotti (2000), “a maior ambição da Escola Cidadã é contribuir na criação das condições para o surgimento de uma nova cidadania, como espaço de organização da sociedade para a defesa de direitos e a conquista de novos. Trata-se de formar para e pela cidadania para a gestação de um novo espaço público não-estatal, uma ‘esfera pública cidadã’, como diz Jürgen Habermas, que leve a sociedade a ter voz ativa na formulação das políticas públicas e assim possa participar da mudança do Estado que temos para a criação de um novo Estado, radicalmente democrático”. Formar este cidadão significa assumir alguns desafios: sair da prática comum de espectadores críticos ou do pessimismo passivo daqueles que só sabem apontar falhas, assumir a nossa parcela de responsabilidade sobre a formação do ser humano integral a fim de devolver ao cidadão a compreensão de que ele pode tomar para si o destino de sua própria história, pode refletir sobre o seu “estar sendo no mundo” e construir autonomia para agir sobre si mesmo e sobre o mundo em que vive, transformando-o para melhor, entender que a tarefa de educar cabe ao professor, ao diretor, aos demais funcionários da escola, aos pais, à comunidade (cada um com sua parcela de responsabilidade), criando, assim, uma dinâmica social local que gere e fortaleça a sinergia entre diversos esforços de diferentes sujeitos que contribuem para a educação integral desde a infância.


Esse processo exige uma escola democrática e não uma escola “lecionadora”, informacional, burocrática, hierarquizada, separando os que pensam dos que executam, estabelecendo relações de mando e subordinação e que tem como sujeito da educação apenas o professor e este atuando como um mero transmissor de conteúdos. A educação cidadã e integral reconhece e valoriza os vários sujeitos da educação. Precisamos, na escola e na comunidade, de relações pedagógicas democráticas, dialógicas, alicerçadas na com-vivência e nas experiências da vida cotidiana dos alunos e de toda a municipalidade onde vivem. Essa educação valoriza a sociabilidade, a afetividade, o cuidado no processo de ensino e aprendizagem e, por isso, não se mantém indiferente a essas dimensões.


IV – SOMOS TODOS(AS) EDUCADORES(AS) E TRABALHADORES(AS) EM EDUCAÇÃO?

Por razões já explicitadas anteriormente, quando falamos em educação integral e educação cidadã, em alguma medida, cada cidadão é também um educador, no sentido amplo desta palavra; mas, quando falamos em “trabalhadores em educação”, aí estamos nos referindo mais especificamente a todos os funcionários educacionais: especialistas da educação, pessoal operacional e professores.


E qual o papel dos trabalhadores em educação, em especial, dos professores?
A educação integral, como vimos, visa à formação integral do educando. Nesse sentido, para alcançar este objetivo, não estamos falando de quaisquer educadores. Estamos falando, como diz o professor Moacir Gadotti, dos “profissionais do sentido”, daqueles que semeiam esperança e sonhos no coração dos homens e das mulheres e, por semearem esperança e sonhos, contribuem para significar projetos de vida.


Ladislau Dowbor abre seu livro Tecnologias do conhecimento: os desafios da educação (Petrópolis, Vozes, 2001) citando um texto que nos conclama a pensar sobre o sentido de ser educador. Dowbor chama a atenção para uma mensagem deixada por um prisioneiro de campo de concentração nazista que viu “crianças envenenadas por médicos diplomados; recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas; mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades” e, diante desses horrores da guerra, o prisioneiro recorre aos professores pedindo que “ajudem seus alunos a tornarem-se humanos”, dizendo que “ler, escrever e aritmética só são importantes para fazer nossas crianças mais humanas”.


No livro Boniteza de um sonho, de Moacir Gadotti (IPF, 2005), os trabalhadores em educação, diante do desafio da educação integral e cidadã, são aqueles que aprendem e ensinam a viver intensamente o nosso tempo, com consciência e sensibilidade. Sem eles, não se pode imaginar um futuro para a humanidade, pois “os educadores, numa visão emancipadora, não só transformam a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam pessoas. (...) Eles fazem fluir o saber (não o dado, a informação e o puro conhecimento), porque constroem sentido para a vida das pessoas e para a humanidade e buscam, juntos, um mundo mais justo, mas produtivo e mais saudável para todos. Por isso eles são imprescindíveis”. O trabalho do educador, numa concepção integral de educação e na Escola Cidadã, ganha um novo sentido, pois está integrado à participação ativa dos familiares e da comunidade.


Cabe a todos nós, trabalhadoras e trabalhadores em educação, organizarmos as nossas ações de forma sistemática e criativa, desenvolvendo projetos e ações coletivas junto aos demais sujeitos da escola e da comunidade, de forma a construirmos, processualmente, as condições concretas para que a Educação Cidadã e Integral se tornem realidade no município em que vivemos e atuamos, como veremos no módulo III deste curso.

Ângela Antunes é mestre e doutora em Educação pela FE-USP, pedagoga e Diretora Pedagógica do Instituto Paulo Freire. Autora do livro Aceita um Conselho? Como organizar o colegiado escolar.(SP, Cortez-IPF, 2002). E-mail: angela@paulofreire.org
Paulo Roberto Padilha é mestre e doutor em Educação pela FE-USP, pedagogo, músico e Diretor de Desenvolvimento Institucional do Instituto Paulo Freire. Autor dos livros: Educar em Todos os Cantos (SP, Cortez-IPF, 2007), Currículo intertranscultural (SP, Cortez-IPF, 2004) e Planejamento dialógico (SP, Cortez-IPF, 2001). E-mail: padilha@paulofreire.org
Site do IPF: www.paulofreire.org

 


Este módulo foi publicado na Revista Direcional Educador - edição 37 - fevereiro/2008