curso livre de
PROJETOS TRANSDISCIPLINARES
Por Ângela Antunes e Paulo Roberto Padilha
angela@paulofreire.org / padilha@paulofreire.org

Módulo 1
Introdução
I - Educação Cidadã, Educação Integral
II - Educação Integral, Tempo Integral


I - Introdução

Estamos iniciando um importante diálogo, na forma de curso, que terá 12 módulos mensais e que acontecerá no período de março de 2009 a fevereiro de 2010. Cada módulo terá dois itens que se complementam. No total, o curso terá 12 módulos e 24 itens, numerados sequencialmente, justamente por considerar a unidade do próprio curso e a interdependência dos itens. Para nós, do Instituto Paulo Freire (IPF), instituição sem fins lucrativos que tem por missão a cidadania planetária, é um imenso prazer oferecer um curso, em parceria com a Revista Direcional Educador, com conteúdos e metodologias que utilizamos em nossas formações iniciais e continuadas, por todo o país.


Apresentaremos os conceitos fundantes que orientam as nossas práticas quando falamos de formar para o exercício crítico e ativo da cidadania. Discutiremos, no contexto da educação contemporânea, aspectos que são necessários ao trabalho organizativo e pedagógico de diferentes instituições educacionais, dando ênsafe a dimensões que, ainda hoje, são desprezadas: a dimensão ecológica/ecopedagógica dos currículos das escolas, a superação da dicotomia entre teoria e prática, a ênfase ao respeito e à valorização da diversidade cultural, o planejamento e a avaliação dialógica, com a participação de todos os segmentos escolares. Tudo isso, valorizando a gestão democrática e compartilhada, visando a um “município que educa”, conceito novo que apresentaremos neste curso, relacionado a novos referenciais da gestão pública educacional.
Ao participar deste curso, cada pessoa terá a oportunidade de refletir sobre as suas práticas e, conosco, reescrever a sua própria história, no sentido de quem está permanentemente aberto a aprender e a ensinar. Que ao fazê-lo, possamos transformar este diálogo numa convivência curiosa, prazerosa e aprendente, na direção de uma educação possível, de um outro mundo possível.

I – EDUCAÇÃO CIDADÃ, EDUCAÇÃO INTEGRAL

A Escola Cidadã nos ajuda a concretizar o sonho da realização de uma Educação Integral. E a Educação Integral viabiliza a efetivação do que chamamos, atualmente, de Educação Cidadã.
A Escola Cidadã surgiu para fazer frente ao projeto pedagógico neoliberal. Ela se traduziu na continuidade do movimento de educação popular que ficou conhecido pela expressão “escola pública popular”, principalmente, no contexto e a partir da gestão da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo de 1989 a 1992.
Nas palavras de Paulo Freire a escola cidadã

se assume como centro de direitos, como um centro de deveres. A Escola Cidadã, então, é a escola que viabiliza a cidadania de quem está nela e de quem vem a ela. Ela não pode ser uma escola cidadã em si e para si. Ela é cidadã na medida em que se exercita na construção da cidadania de quem usa o seu espaço. A Escola Cidadã é uma escola coerente com a liberdade que, brigando para ser ela mesma, luta para que os educandos-educadores também sejam eles mesmos. E como ninguém pode ser só, a Escola Cidadã é uma escola de comunidade, de companheirismo. É uma escola que não pode ser jamais licenciosa nem jamais autoritária. É uma escola que vive a experiência tensa da democracia. (PAULO FREIRE, março de 1997. In: PADILHA, Paulo R. Padilha, 2001:61; Segunda orelha)


Escola de comunidade... de companheirismo. Poderíamos nos perguntar: há na escola onde trabalhamos, onde passamos a maior parte do nosso dia, pessoas solidárias, companheiras, que procuram a coerência com a liberdade, da qual nos fala Paulo Freire? E nós... temos sido também exemplares em nossas ações escolares, nas atitudes familiares e comunitárias? Somos solidários ou esperamos que sejam solidários conosco? Praticamos a democracia na escola e, com a mesma coerência, somos democráticos e co-responsáveis em nossos lares? Em nossa comunidade?
O que queremos dizer com isso é que não adianta falar e não agir se queremos, de fato, construir uma educação para um outro mundo possível – um mundo mais feliz, mais justo, com menos violência, superando a desigualdade social, a exclusão e a violência que vemos todos os dias no nosso bairro, na nossa comunidade e no mundo em que vivemos. Uma escola cidadã não fecha os olhos para este mundo, para realidade que temos diante de nós. Por isso, ela é cidadã: defende e educa para o exercício de direitos, para o fim dos privilégios, para o fim da corrupção, da exploração, da injustiça.


Será, leitor e leitora, que temos criado situações temporais e espaciais para pensar nessas questões na nossa vida cotidiana? Ou, até pensamos, mas já nos rendemos à rotina, à fragmentação da sociedade moderna, ocidental, neocapitalista e globalizada, que nos impõe um ritmo frenético de trabalho, de falta de tempo, de ausência de carinho, de amorosidade, de desejos compartilhados... deixando-nos levar pelo isolamento, pelo individualismo, pela competição exacerbada, pela naturalização do que não deveria ser natural – por exemplo, o descaso com a coisa pública, a falta de ética e de estética, a falta de cuidado e de solidariedade para com os nossos próximos, até mesmo a falta de cuidado com a própria saúde, a falta de amizades ou, por outro lado e paradoxalmente, o excesso de cuidado com o corpo e as relações virtuais, internéticas e descartáveis?!


Pois bem. Falarmos de Educação Integral e de Educação Cidadã, provoca-nos, na partida, no caminho e na chegada, reflexões permanentes sobre o que temos feito em nossa vida cotidiana, em nossas práticas profissionais, seja qual for a nossa atuação. Sim, porque no Estado republicano e “democratico” eu que vivemos, falar de educação e cidadania não deve interessar apenas a educadores e educadoras, no sentido restrito do termo.


Um dos conceitos fundantes da obra de Paulo Freire é o de Leitura do Mundo. Simplificando, significa conhecer a realidade antes de nela intervir. Parece simples, e é mesmo. Mas, infelizmente, temos ou não temos, nos diversos espaços em que educamos e nos educamos em nossa sociedade, planejado cursos sem que tenhamos clareza sobre os contextos sociais, culturais, econômicos, políticos em que vivem os nossos alunos? Só para enfatizar, diríamos que quem educa na perspectiva da cidadania não deve cometer este tipo de erro.


Originariamente, a Escola Cidadã foi definida como aquela que é estatal quanto ao financiamento, comunitária e democrática quanto à gestão, pública e popular quanto à destinação. Mas isso não significa que uma escola privada não possa ser cidadã. Uma escola privada pode ser cidadã na medida em que assuma um projeto eco-político-pedagógico de educação para e pela cidadania.
Coerentes com a metodologia freiriana, sugerimos que você possa refletir e discutir com seus pares, o significado de cada um dos princípios acima, procurando associá-los à sua vida cotidiana. Depois de fazê-lo, registre as suas reflexões e a de seu grupo. Nos módulos seguintes, voltaremos a discuti-los.


Durante a década de 1990 a experiência da escola cidadã se multiplicou em várias cidades do país. Este conceito foi evoluindo, naturalmente, para o de Educação Cidadã. Isso aconteceu também para superar uma confusão conceitual de quem argumentava, equivocadamente, que a “escola cidadã”, fazia uma certa separação entre educação formal e não-formal, entre escola e comunidade. Nada mais falso do que isso, pois a escola cidadã pressupõe a superação da distância entre escola e comunidade e insiste na participação desta naquela, aproximando o mais possível educação formal e não formal.


Por outro lado, quando nos referimos à Educação Integral, estamos falando de uma educação que trabalha pelo atendimento e pelo desenvolvimento integral do educando nos aspectos biológicos, psicológicos, cognitivos, comportamentais, afetivos, relacionais, valorativos, sexuais, éticos, estéticos, criativos, artísticos, ambientais, políticos, tecnológicos e profissionais. Educar integralmente o cidadão e a cidadã significa, pois, prepará-lo para uma vida saudável e para a convivência humanizada, solidária e pacífica.


Pessoa educada integralmente é aquela capaz de se relacionar bem com as outras pessoas e com o mundo em que ela vive, de forma consciente, sustentável, crítica e sensível, valorizando e respeitando as diferenças culturais e cuidando para que os seus direitos comecem onde começam os direitos dos outros, como nos dizia Paulo Freire.


O que dizer, por exemplo, de afirmações do tipo “faça o que eu mando, não faça o que eu faço”... Ou, então, “o meu direito acaba quando começa o direito do outro”... Ditos aparentemente tão singelos, mas que escondem incoerências de atitudes que ferem a ética, o direito, a coerência entre teoria e prática... pensemos também sobre isso.


Como veremos nos próximos módulos, a Educação Cidadã e Integral exige organização democrática, elaboração coletiva de princípios de convivência, sistematização das práticas e conhecimento da realidade para nela intervirmos.


A Educação Cidadã e Integral valoriza o diálogo, a amorosidade, a afetividade. O trabalho educativo que daí resulta deve traduzir o conjunto de experiências vivenciadas pelos diversos sujeitos participantes, de maneira que cada pessoa se identifique com o que foi realizado e, portanto, saiba que o projeto do qual ele participou, traduz a suas contribuições individuais, em nome bem comum, do bem coletivo.

II – EDUCAÇÃO INTEGRAL, TEMPO INTEGRAL

Educação Integral não é a mesma coisa que tempo integral ou horário integral. Ela também não se refere apenas a determinados espaços ou tempos de aprendizagem, como se a educação tivesse que acontecer apenas dentro dos calendários fixos, seriados ou ciclados, e, menos ainda, apenas no âmbito da escola. Quando nos referimos à Educação Integral, além das dimensões da formação humana citadas acima, estamos tratando de abrir a mente e o coração para as diferentes possibilidades de ensino e de aprendizagem que formos capazes de realizar. Trata-se de articularmos saberes a partir de projetos integrados e integradores, de ações e parcerias intergeracionais, intersetoriais e interculturais.


A Educação Integral é, na verdade, fundamento do Tempo Integral, pois é a partir do estudo dos seus princípios e diretrizes, que melhor podemos desenvolver uma experiência escolar ou comunitária de horário ou de tempo integral, aumentando a jornada de permanência dos alunos nas instituições educacionais onde elas estudam ou desenvolvem atividades diversas – culturais, esportivas, de lazer etc.


No âmbito da educação formal e não formal, é bom que se entenda que para se realizar o que hoje chamamos de Educação Integral, enquanto política pública, devemos partir da elaboração de um projeto coletivo e estratégico, bem feito, que saiba aproximar cuidadosamente estado e sociedade civil, interconectando o interesse de todas as pessoas e instituições para que se ofereça, no município, uma educação de qualidade sociocultural e socioambiental, unindo sonhos e projetos coletivos nos diversos âmbitos da sociedade – o que exige, por exemplo, a elaboração de projetos intersetoriais e intersecretariais.


Valorizar cada sujeito desse processo também é fundamental, de forma que alunos e alunas, familiares, professores e professoras, coordenadores e diretores escolares, funcionários das unidades educacionais envolvidas e das instâncias governamentais participantes – além de toda a organização da sociedade civil – movimentos sociais, igrejas, sindicatos, clubes, bibliotecas, teatros etc. saibam exatamente o que está para acontecer na educação municipal, estadual ou federal.


A comunicação, a transparência, a veiculação de informação de todos os lados é exigência inicial para dar visibilidade tanto ao que se pretende fazer, quanto ao que já foi feito, até porque, se não se sabe o que está acontecendo, como podem as pessoas e instituições se associar e defender algum projeto ou programa? A comunicação é essencialmente educativa.


Trabalhar com a formação continuada dos sujeitos para viabilizar a Educação Integral e o horário integral é outra exigência desse processo, compondo um verdadeira sinfonia em torno do projeto que se quer construir, o que depende de vários músicos, vários sujeitos, maestros e instrumentos – diríamos, recursos e condições humanas, financeiras e materiais concretas. Educar integralmente significa, pois, educar para garantir direitos e contribuir para a promoção de todas as formas de inclusão.


Para concluir este nosso primeiro módulo, é bom reforçar: o conceito de horário integral discute a possibilidade de manter o aluno mais tempo dentro da escola ou em atividades na comunidade escolar, no contraturno, mas melhor acompanhado, melhor alimentado e melhor cuidado, procurando estimulá-lo a realizar outras aprendizagens fundamentais para a sua formação plena (integral) como cidadão de direitos.


Para a nossa reflexão, até o próximo encontro, uma pergunta que não quer calar: temos observado, nos espaços educacionais onde trabalhamos, ou naqueles nos quais nossas crianças, adolescentes e jovens estudam e frequentam, se existe uma preocupação efetiva com a formação integral dos mesmos? Se a resposta for afirmativa, que tipo de ações já temos visto serem realizadas? E quanto ao horário integral? É integral mesmo, as crianças tem sido bem cuidadas, ou, ao contrário, percebemos que elas não tem sido bem acompanhadas, nem bem alimentadas, nem tem aproveitado de forma satisfatória esse tempo destinado a outras aprendizagens? E, para concluir: as nossas escolas já contam com profissionais formados e bem orientados para acompanhar os nossos alunos nos seus processos formativos enquanto educação integral?


Até o próximo módulo, onde continuaremos esta conversa, este diálogo, já pensando nos sujeitos da Educação Integral e da Educação Cidadã... afinal, somos todos educadores e trabalhadores em educação?
Reflitamos.


Ângela Antunes é mestre e doutora em Educação pela FE-USP, pedagoga e Diretora Pedagógica do Instituto Paulo Freire. Autora do livro Aceita um Conselho? Como organizar o colegiado escolar.(SP, Cortez-IPF, 2002). E-mail: angela@paulofreire.org
Paulo Roberto Padilha é mestre e doutor em Educação pela FE-USP, pedagogo, músico e Diretor de Desenvolvimento Institucional do Instituto Paulo Freire. Autor dos livros: Educar em Todos os Cantos (SP, Cortez-IPF, 2007), Currículo intertranscultural (SP, Cortez-IPF, 2004) e Planejamento dialógico (SP, Cortez-IPF, 2001). E-mail: padilha@paulofreire.org
Site do IPF: www.paulofreire.org

 


Este módulo foi publicado na Revista Direcional Educador - edição 37 - fevereiro/2008