BERÇÁRIO
O início do ano letivo e a adaptação dos bebês

Por Rosa Maria de Freitas Rogerio

Quando a sociedade acolhe as diferenças de seus membros, ela pode acompanhar a família, respeitar-lhe o olhar, deixá-la trazer suas necessidades, opiniões e aspirações e considerá-la uma especialista em seu filho.
Zilma Ramos de Oliveira

O início do ano letivo na instituição de Educação Infantil traz uma grande preocupação para os profissionais da educação: a adaptação dos bebês à rotina da escola. Além da adaptação do bebê ao ambiente da escola, a família e os professores também passam por um processo de adaptação.
Quando o bebê chega à instituição educativa, ele precisa ser recebido com muito carinho e respeito para que possa se sentir seguro e acolhido e para que possa ter todas suas necessidades atendidas. Garantir que todos os bebês vivenciem um processo de adaptação tranquilo e confortável é tarefa dos profissionais de educação que lidam com esses seres tão pequenos.
O bebê que vai frequentar a escola precisa encontrar um ambiente que assegure a satisfação de suas necessidades físicas, lhe ofereça suporte emocional e contribua para a formação da sua identidade. Para que isso aconteça de forma natural é fundamental que a instituição educativa estabeleça uma parceria com a família porque pais e professores vão compartilhar a ação educativa.
O contexto da família e o contexto da escola são diferentes por natureza, por isso a escola precisa promover encontros com os pais/responsáveis das crianças que vai acolher, para que possam trocar informações sobre os ideais de educação de cada parte interessada nesse processo. Para trabalhar de modo produtivo no estabelecimento de uma aproximação com as famílias, os professores de creches e pré-escolas devem considerar que a família nuclear típica da cultura burguesa não é, hoje, a única referência existente (OLIVEIRA, 2007, p. 176). Conhecer o contexto familiar e social de cada criança, antes de acolhê-la na instituição educativa, ajuda no planejamento de atividades para o período de adaptação pois a criança
por pequena que seja [...] já viveu, em sua família, um conjunto de experiências transcendentes a si. Os professores e as professoras necessitam saber como é essa criança, quais os seus ritmos, que pautas de relação está estabelecendo e com que pessoas, o que lhe agrada e o que não lhe agrada, etc. (BASSEDAS, HUGUET & SOLÉ, 1999, P. 285).
Sabendo dessa realidade subjetiva, o professor precisa elaborar estratégias de acolhimento que levem em conta as características particulares de cada bebê e o contexto do grupo de crianças que irá frequentar a sua sala de aula. Não será apenas um bebê que estará ingressando na instituição educativa, haverá outros novatos e o professor vai lidar com as necessidades de todas as crianças. Como o professor pode se preparar para promover um período de adaptação tranquilo para as crianças sob sua responsabilidade?
O primeiro passo é conhecer o histórico familiar da criança. Para isso é importante que a instituição de Educação Infantil realize entrevistas com os pais/responsáveis para saber sobre a vida da criança até o momento de entrada na escola e, dessa forma, se preparar para lidar com o apego da criança em relação a sua família.
O sofrimento da separação pode ser evitado ou diminuído quando a instituição educativa se prepara para receber de forma acolhedora as crianças que nunca estiveram por tanto tempo longe do seu ambiente familiar, e quando essa instituição consegue tranquilizar os pais/responsáveis em relação à ansiedade e à insegurança de deixar o bebê no novo ambiente.
Algumas iniciativas podem garantir tranquilidade e naturalidade ao processo de adaptação do bebê ao ambiente escolar. Os professores podem:
- possibilitar que a criança traga alguns objetos familiares de casa: seu travesseiro, algum brinquedo, paninho, etc;
- permitir que algum familiar permaneça na unidade junto à criança durante os primeiros dias, diminuindo esse tempo de permanência gradativamente, enquanto o professor observa o modo como cada criança é atendida pela figura familiar;
- inserir a criança em atividades interessantes, estimulá-la a manipular objetos, senti-los, significá-los, a observar os companheiros e a interagir com eles;
- organizar o ambiente (com objetos e locais mais livres para locomoção), para facilitar que o bebê ou a criança pequena brinque com outras crianças sem perder de vista o professor;
- relatar diariamente para a família alguma situação da qual a criança participou com mais interesse, a fim de tranquilizar os familiares (SÃO PAULO, 2007, p. 31).

Para além dessas iniciativas, a instituição de Educação Infantil precisa disponibilizar outros funcionários para auxiliar o professor na tarefa de adaptação dos bebês ao ambiente escolar. O professor responsável por cinco, seis, sete e até mais crianças não consegue lidar sozinho, nesse momento inicial, com as necessidades de todas elas e precisa de ajuda. Essa ajuda pode vir em relação aos momentos de alimentação, de troca de roupas ou banho e de preparo para o descanso.
Os professores que recebem os ‘calouros’ do berçário também vivenciam um processo de adaptação, pois possuem poucas referências sobre as crianças. Diante disso, a instituição de Educação Infantil, através de sua equipe gestora, é responsável por oferecer condições adequadas de trabalho ao professor para que este disponha de ambiente confortável e bem organizado para a recepção dos bebês. Não há como exigir bom desempenho profissional de um professor que não dispõe de ambiente adequado para exercer suas funções.
O que seria um ambiente adequado? Uma sala bem ventilada, com diversos estímulos visuais para os bebês, que ofereça conforto físico e bem estar emocional, que seja elaborada com móveis específicos para a primeira infância, etc. Como já foi dito, o professor precisa de um colaborador ou auxiliar para ajudá-lo a garantir um processo de adaptação tranquilo aos bebês.
Poderá haver momentos em que mais de uma criança estará chorando. Como lidar com as necessidades emocionais de mais de um bebê ao mesmo tempo? Com paciência e tranquilidade. A crise de choro pode ser muito estressante para as outras crianças do grupo e até mesmo para o professor. Este precisa ser paciente para escutar esse choro, que é apropriado à situação – e não tentar calar ou distrair a criança sacudindo um brinquedo à frente dela, fazendo barulhos supostamente reconfortantes ou jogando-a para cima enquanto a segura. A ansiedade deve ser expressa em um contexto de tranquila aceitação, da mesma maneira que tentaríamos consolar um adulto que passa por uma situação de perda e luto (GOLDSCHMIED, 2006, p. 65).
As relações pessoais íntimas entre educando e educador precisam primar pelo desenvolvimento e felicidade das crianças. O vínculo afetivo é muito importante para o bem estar do bebê porque através dele a criança estabelece suas próprias relações com o mundo que a cerca. Quanto mais carinho, afeição e bem estar a criança sentir, mais confortável e tranquilo será seu processo de adaptação à rotina do novo ambiente.
O horário coletivo de formação, dentro da jornada de trabalho do professor, é um momento ideal para troca de experiências sobre a adaptação dos bebês. Os professores, mesmo os mais experientes, recebem crianças novas a cada início de ano e precisam conversar sobre como proceder em seu acolhimento inicial. Dicas, conselhos e sugestões de atividades coletivas são sempre bem vindas nesse momento de formação e enriquecem o repertório profissional de todos os profissionais.
Os pais/responsáveis também precisam ser acolhidos pela instituição educativa porque também se sentem inseguros em relação ao novo ambiente onde seus filhos ficarão por boa parte do dia. Muitas mães se sentem culpadas por terem que deixar seus filhos em instituições educativas para poderem trabalhar. Esse sentimento precisa ser superado porque o ambiente escolar oferecerá diversos estímulos para a criança e esta se desenvolverá muito bem. Os professores e a equipe gestora são responsáveis pela formação dos pais/responsáveis em relação ao cuidado e à educação de seus filhos e em relação a esse momento de primeira grande separação dos pais/responsáveis e das crianças.
O professor não tem um papel terapêutico em relação à criança e sua família, mas o de conhecedor da criança, de consultor, apoiador dos pais, um especialista que não compete com o papel deles. Ele deve possuir habilidades para lidar com as ansiedades da família e partilhar decisões e ações com ela. Se assim ocorrer, a família terá no professor alguém que lhe ajude a pensar sobre seu próprio filho e a se fortalecer como recurso privilegiado do desenvolvimento infantil (OLIVEIRA, 2007, p. 181).
Dessa forma, os professores conquistam a parceria dos pais na educação e no cuidado das crianças pequenas e conseguem garantir uma fase de adaptação tranquila para todos os envolvidos nesse processo: bebês, pais/responsáveis e profissionais de educação.
Na última vez em que lidei diretamente com esse processo, ele se desenvolveu da seguinte forma: realizamos uma leitura dos formulários de matrículas preenchidos pelos pais durante o horário coletivo de formação; levantamos informações importantes sobre saúde e hábitos diários básicos (preferências de alimentos, brincadeiras, etc.); organizamos uma reunião de pais antes do início do ano letivo para apresentarmos a proposta pedagógica do Centro de Educação Infantil (CEI) e para conhecermos um pouco melhor as famílias das crianças que receberíamos; nessa reunião explicamos que cada bebê ficaria por apenas 3 horas no CEI, durante a primeira semana; organizamos um cronograma no qual cada criança teria seu horário específico, que variava a cada dia, onde ela conviveria com número reduzido de crianças e teria, dessa forma, maior atenção por parte das professoras; na segunda semana, dividimos a turma de 27 bebês em duas turmas – A e B; a turma A viria três dias da semana das 7h as 12h e a turma B viria três dias da semana das 13h as 18h; nos dois últimos dias da segunda semana, a turma A viria a tarde e a turma B de manhã e na terceira semana todas as crianças já viriam o período integral.
Após avaliação ao final da segunda semana, percebemos que três bebês precisariam ainda continuar o processo de adaptação e frequentar o CEI por curto espaço de tempo. Aos poucos todos se acostumaram e o chororô excessivo (sofrimento) acabou antes do fim do primeiro mês. Os bebês passaram a se sentir seguros e acolhidos no novo ambiente.
Os bebês e suas famílias, ao serem bem recebidos e acolhidos pela instituição de Educação Infantil, se adaptam bem à rotina do ambiente escolar. Esse momento de recepção, de acolhimento e de adaptação, tanto de bebês, como dos pais/responsáveis e dos professores, necessita de planejamento e avaliação coletivos por parte dos profissionais de educação da unidade escolar. Lembrem-se sempre de que o período de adaptação varia de criança para criança, é único e precisa ser respeitado.

Referências bibliográficas
BASSEDAS, HUGUET & SOLÉ. Aprender e ensinar na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 1999.
GOLDSCHMIED, Elinor. Educação de 0 a 3 anos: o atendimento em creche. Porto Alegre: Artmed, 2006.
OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação Infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2007.
SÃO PAULO (SP). Secretaria Municipal de Educação. Diretoria de Orientação Técnica. Orientações curriculares: expectativas de aprendizagem e orientações didáticas para Educação Infantil. SP: SME/DOT, 2007.

Rosa Maria de Freitas Rogerio é Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da USP e Professora de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.
E-mail: rosarogerio@yahoo.com.br

CRÉDITO DA FOTO
Foto: Geralda de Freitas Rogerio