![]() |
ENTREVISTA |
QUÉZIA BOMBONATTO Trilhando caminhos para a psicopedagogia Matéria publicada na revista Direcional Escolas - edição 18 - julho/2006 A vice-presidente da ABPp analisa a importância da psicopedagogia, um trabalho que deve ser desenvolvido em parceria com a escola e a família. Por Luiza Oliva Muito se tem discutido sobre a importância e o papel da psicopedagogia na superação das dificuldades de aprendizagem. Para Quézia Bombonatto, vice-presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), a psicopedagogia hoje no Brasil vive um momento muito importante, o da descoberta da identidade do psicopedagogo. Quezia rememora a origem da psicopedagogia, com as argentinas Alicia Fernandez e Ana Maria Muniz, com um foco mais psicanalítico. “Era o enfoque da pedagogia especial, de um processo de reeducação de crianças que não davam conta da aprendizagem. Do ano 2000 em diante, tem se desenvolvido o enfoque da neurociência. Inclusive dentro da ABPp estamos nesse impasse de acolher as duas posturas, já que elas não são excludentes. A própria psicopedagogia é interdisciplinar e transdisciplinar, não dá para analisar um caso só como pedagógico, emocional ou biológico”, atesta. Quézia lembra que nos anos 1970 era comum ver crianças com vários atendimentos: fonoaudiologia, psicomotricidade, psicoterapia. Hoje, até por questões financeiras, as famílias têm priorizado alguma área. “Isso não significa que o psicopedagogo vai dar conta de tudo, que ele é um profissional onipotente. O objetivo da psicopedagogia é o sujeito no processo da aprendizagem, e aprendizagem vista no sentido mais amplo. O aprender vai além da instituição escola. Hoje o professor, além da aprendizagem acadêmica, tem que olhar para o processo formativo dos alunos. Vivemos questões políticas e morais para serem aprendidas. Esse sujeito aprendente é o objeto de estudo da psicopedagogia”, define. Quézia é bacharel em Matemática, fonoaudióloga, formada em psicopedagogia clínica pela Escuela Psicopedagógica de Buenos Aires. Atuou por quase 20 anos como professora de Matemática do Ensino Fundamental ao superior, atende crianças e adolescentes em seu consultório em São Paulo e é autora da coleção Aprender a Compreender (Editora Plexus), com Estela Marques, Thais H.F. Pellicciotti e Carmen Silvia Micheletti. Nessa entrevista a Direcional Escolas, ela conversa sobre a psicopedagogia, suas funções e importância.
DIRECIONAL ESCOLAS – Há uma necessidade em se definir a identidade do psicopedagogo também por parte da escola? A escola tem dúvidas da função desse profissional? QUÉZIA BOMBONATTO - Embora a psicopedagogia não seja reconhecida legalmente, ela o é de fato, ela já tem um lugar na sociedade. Ela não tem o aspecto legal da profissão, mas sua função está aí. Existem concursos públicos para psicopedagogos. Tenho conhecimento de concursos em cidades como Carapicuíba, Santos, São Roque e Vargem Grande Paulista, em São Paulo, e Barreiras, na Bahia. O campo de atuação da psicopedagogia está muito claro. Precisamos transmitir isso. Comparo a psicopedagogia com a síndrome do pavão e a síndrome do pato. Quando você vê um pato e um pavão, quem chama mais a atenção é o pavão. Mas o pato anda muito melhor do que o pavão, enquanto o pavão se mostra, aparece. A psicopedagogia está ainda na síndrome do pato, porque faz, atua, sabemos a sua importância, da diferença que há entre uma criança acompanhada e outra que não é acompanhada.
Há quem acredite que a escola usa o encaminhamento para o psicopedagogo como uma forma de defesa. A escola deve ter um psicopedagogo dentro da instituição? O fato da escola encaminhar uma criança para um profissional externo não significa que ela está se desfazendo de um problema. Ela não encaminha para se ver livre de um problema. Eu não vejo o encaminhamento para um psicopedagogo como um descompromisso da escola. Muito pelo contrário. Ao encaminhar um aluno a escola ela está se envolvendo mais com ele. Ela sabe que um coordenador, um orientador vai ter que disponibilizar um tempo para falar sobre aquele aluno com o psicopedagogo. Porém, a leitura de alguns pais é que a escola está encaminhando para se ver livre. Um trabalho consciente é um trabalho do psicopedagogo com a escola. O profissional vai avaliar os processos educacionais daquela escola, e o que é ou não adequado para a criança. A partir do diagnóstico, ele vai estudar junto com a escola como se deve ajudar essa criança. Já o psicopedagogo dentro da escola tem uma função diferente do psicopedagogo clínico. Dentro da escola ele vai olhar para o processo de ensino e aprendizagem, trabalhando com o professor e com o aluno, e com o aluno dentro do grupo. Ele não vai tirar o aluno para fazer um processo terapêutico, ele vai ver como o aluno está inserido naquele grupo, junto com seus pares. O psicopedagogo institucional tem essa visão mais ampla. Há inclusive um projeto de lei, a Lei Claury, já aprovada na Assembléia Legislativa de São Paulo, que prevê que todas as escolas estaduais tenham um psicopedagogo. (N.R.: O Projeto de Lei nº 128/2000, do deputado Claury Alves da Silva, foi transformado na Lei nº 10.891, de 20 de setembro de 2001, e estabelece a implantação de assistência psicológica e psicopedagógica em todos os estabelecimentos públicos de ensino do Estado de São Paulo). Já a intervenção clínica é diferente da intervenção institucional. A intervenção dentro do consultório parte da avaliação feita pelo profissional, e ele vai fazer o tripé com a família e a escola. Não acredito no trabalho isolado, existe a interação com a escola e a família. Com base na teoria sistêmica, olhamos não só o indivíduo mas o indivíduo dentro da relação. Nas relações temos papéis diferentes, funções diferentes. A psicopedagogia é inclusiva, temos que ter esse olhar para a família e a sociedade. Não vou olhar só o vínculo, mas como foi o desenvolvimento dessa criança, com que ferramentas essa criança vem e suas diferenças individuais.
Qual a importância da participação da família e do professor no acompanhamento psicopedagógico? Fazer a psicopedagogia com a família é olhar para o processo do aprender dessa família. É a aprendizagem da família. O foco está na aprendizagem, em como o indivíduo está aprendendo, e aprender não é só aprender a ler e a escrever. Não é só aprender o conteúdo acadêmico. Eu tenho que olhar para a aprendizagem como um processo do desenvolvimento desse indivíduo. Sempre é importante ouvir o que a família nos traz, ter essa via de dupla mão e sair do lugar de que eu sei tudo. Nesse ponto, vemos como a psicopedagogia é importante, nessa função das pontes, com a família e com o próprio professor, que se sente desemparado mesmo.O conflito do professor é como ele pode dar conta de uma criança que apresenta um déficit de atenção inserida numa classe de 35, 40 alunos. A ética e o compromisso do psicopedagogo é com a criança ou o adolescente. Perguntamos se a escola pode se moldar, pode incluir esse aluno. Se a escola diz que está no limite, então vamos pensar se é melhor uma transferência. Em geral, as escolas têm acolhido. É mais difícil para o professor, mas vejo prefeituras investindo na capacitação do professor para que ele possa incluir esse aluno com um distúrbio ou transtorno de aprendizagem. O importante é olhar o desempenho escolar do aluno junto ao diagnóstico psicopedagógico. O papel do psicopedagogo é desconstruir uma dificuldade, o que ele faz junto com a escola e a família. Não adianta só repor um conteúdo se esse aluno não está sabendo estudar. Ele sente que estuda, estuda, e não dá conta, o que é pior ainda. Muitas vezes, o professor pergunta: o que você não entendeu? E a criança fala: nada. Ela se sente diante de uma situação paralisante. E o professor fica nervoso. Como é possível não entender nada? Na verdade, o professor fez a pergunta errada. Ele não tem que perguntar o que o aluno não entendeu, porque o que ele não entendeu ele não vai saber dizer. Ele tem que perguntar: até onde você entendeu? E o aluno também não gosta dessa pergunta, porque o faz pensar.Mas se o processo está alterado, com problemas, então temos que ressignificar essa aprendizagem.
Há uma distinção entre dificuldades e distúrbios de aprendizagem? A dificuldade não tem uma única causa, pode ser da família, da escola, da metodologia, não é intrínseca, tem causas extrínsecas, enquanto que as dos distúrbios são intrínsecas. Alguns autores usam o termo distúrbio, outros utilizam transtorno. Distúrbios são alterações presumidamente devidas a uma disfunção no sistema nervoso central. Por exemplo, a discalculia, o Transtorno do Déficit de Atenção são distúrbios. Muito mais freqüente que o transtorno de aprendizagem, a dificuldade pode ser diagnosticada em crianças cujos déficits na aprendizagem não se devem a problemas cognitivos. As dificuldades podem surgir em geral na troca da escola, por desorganização na família, excesso de atividades extra-curriculares, pais muito ou pouco exigentes, problemas socioculturais e emocionais, e efeitos colaterais de medicações que causam hiperatividade ou sonolência, diminuindo a atenção da criança.
Como o professor pode reconhecer um aluno com distúrbio de aprendizagem? Algumas das características das crianças com transtornos ou distúrbios de aprendizagem são o déficit de atenção, a dificuldade de aquisição de novas aprendizagens cognitivas, prejuízos da habilidade motora, da linguagem oral e escrita, da leitura, assim como do raciocínio matemático, questões perceptuais e perturbações no comportamento social.
Os pais, quando procuram o psicopedagogo, têm uma ansiedade muito grande, principalmente porque a criança com dificuldade de aprendizagem está com notas ruins. Como o profissional deve lidar com essa situação? O psicopedagogo não é um professor particular, embora se saiba que muitos se autointitulam psicopedagogos e acabam fazendo um processo de recuperação. Quando a criança está defasada e precisa dar conta daquilo, primeiro deve se pensar em como vamos organizar a vida daquele aluno. Provavelmente ele não está sabendo estudar, e está mostrando que alguma coisa não vai bem. Quando o rendimento escolar da criança cai, ela está querendo contar alguma coisa. Nem sempre é só a criança que não vai bem. Mudou alguma coisa na escola? A relação dele dentro da escola mudou? Que vínculos estão rompidos? Algum vínculo foi rompido, com a aprendizagem, com o ensinante, com o grupo. Essa é a função do psicopedagogo, é perceber o que está acontecendo, e também trabalhar com a angústia dos pais. Verificar o que a escola está oferecendo de reforço, de processos paralelos de recuperação. Porque o psicopedagogo não tem que dar conta de tudo, senão ele teria que entender de história, geografia, física, matemática. Ele não vai estudar com a criança, mas vai instrumentalizá-la. A linguagem é algo primordial. Se a criança não está entendendo o que está lendo, se não sabe colocar no papel o que está pensando, isso é função do psicopedagogo, pois essa dificuldade vai interferir em outras áreas. Verificar como ela está estudando, como está a concentração, se não está preocupada com coisas paralelas. Às vezes, o pai perdeu o emprego e a criança não está sabendo lidar com essa angústia. Há casos em que logo no início da avaliação a criança melhora. O simples fato da família trazê-la faz com que ela se sinta acolhida. É alguém que a está ouvindo, ela pode falar das suas dificuldades. Às vezes são coisas óbvias: a criança está sentada lá atrás e não poderia. Ou está sendo vítima de um bullying e não está podendo falar.
Qual a faixa etária em que é mais indicado o diagnóstico psicopedagógico? Hoje em dia, cada vez mais cedo se faz o diagnóstico, mas a criança passa a ser encaminhada da 1ª para a 2ª série, porque é quando ela fica exposta aos diferentes conteúdos e o professor começa a perceber que ela não está dando conta. O foco maior na pré-escola e no 1º ano ainda é a alfabetização. A criança já começa a apresentar dificuldades na seriação, na inversão de números. Mas, precisamos dar um tempo para essa criança amadurecer essas funções. A percepção espacial está comprometida no discalcúlico, mas a criança, quando está no processo de prontidão, muitas vezes tem uma imaturidade e não obrigatoriamente uma discalculia.
O que é a discalculia? Discalculia é uma dificuldade focada em matemática. É falso dizer que quem vai bem em matemática é mais inteligente. Há alunos discalcúlicos brilhantes. É uma dificuldade neuropsicológica, vem de uma disfunção neurológica que dificulta as competências para lidar com cálculo e raciocínio matemático. As habilidades numéricas do discalcúlico estão alteradas, assim como o processo de resolução de problemas. O aluno acaba tendo um descompasso na resolução dos problemas da vida. Não aprendemos a resolver problemas para dar conta da matemática acadêmica. Precisamos resignificar o ensino da matemática. Quando a criança vê que aquilo tem um sentido, a matemática deixa de ser o bicho-papão. Às vezes, a criança não é discalcúlica, mas tem uma Dificuldade de Aprendizagem em Matemática (DAM). Há a discalculia verdadeira, a secundária e a natural. Se eu cobrar de uma criança quanto é 2x2 se ela ainda não aprendeu quanto é 2+2, não posso dizer que ela é discalcúlica, embora a função daquele cálculo ela ainda não tenha. Essa é a discalculia natural. A criança tem uma falha no processo do cálculo porque não foi exposta a isso ainda. Já a discalculia secundária é a que deriva de um distúrbio de atenção, por exemplo. Um TDAH tem muitas vezes um processo discalcúlico porque tem esse déficit de atenção e comete falhas na parte perceptual. Também o oligofrêmico, que é a criança que tem uma dificuldade de compreensão, vai apresentar uma dificuldade secundária em matemática.
E os adolescentes, precisam da psicopedagogia? Sim. Muitas vezes o adolescente traz uma dificuldade de aprendizagem, mas vai dando conta daquilo. Quando ele entra no Ensino Médio, o nível de conteúdo fica mais abstrato e ele ainda não atingiu uma capacidade de abstração, ou não foi suficientemente exposto e estimulado a pensar daquela forma. E há ainda a fase de transição pela qual o adolescente passa. Quando ele entra na adolescência, há o conflito de ser cobrado como adulto para algumas coisas e para outras ainda ser criança. Hoje há ainda outra característica atual da qual devemos dar conta como profissionais: ninguém quer ser bom aluno, para não ser taxado como nerd e ser excluído do grupo.
Contatos com Quézia Bombonatto: queziabombonatto@yahoo.com.br |

edição 18
julho/2006
![]() |
a
revista do educador |