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BRINCADEIRAS
INFANTIS:
TEORIZANDO SOBRE SUA IMPORTÂNCIA
Por Alessia Costa De A. Cravo
Este artigo tem como principal objetivo apresentar reflexões
sobre a importância do brincar, especificamente, conhecendo a
história das brincadeiras infantis e seu valor na socialização
infantil. Para tal, precisamos considerar o brincar como um processo
que envolve uma variedade de comportamentos e oportunidades que se fazem
presentes no universo infantil.
A brincadeira é universal, facilita o crescimento, as relações
sociais, amplia a comunicação consigo e com os outros,
dando oportunidade à criança de expressar os seus sentimentos
e emoções. Brincar deriva do latim vinculum, que significa
laço, união e criação de vínculos.
É significativa a influência das brincadeiras no desenvolvimento
de uma criança, principalmente quando ela interage e se envolve
numa situação imaginária, apresentando novos comportamentos,
livres de restrições impostas pelo ambiente.
Contribuindo para a discussão sobre o tema, Vygotsky (1998, p.130)
afirma que “[...] a criação de uma situação
imaginária não é algo fortuito na vida da criança;
pelo contrário, é a primeira manifestação
da emancipação da criança em relação
às restrições situacionais”. Neste sentido,
é necessário atentar para a seriedade do brincar, buscando
prazer sem culpas, medos e ansiedades, respeitando as ações
espontâneas das crianças, sua maneira de ser e de pensar,
para poder, também, colaborar significativamente na construção
das identidades destas.
Enfatizando a importância das brincadeiras para a infância,
Huizinga (1980, p. 320) afirma que: “[...] as crianças
e os animais brincam porque gostam de brincar, e é precisamente
em tal fato que reside a sua liberdade”. Já Winnicott (1965,
p.71) “[...] considera o brincar como uma área intermediária
de experimentação para a qual contribuem a realidade interna
e externa”. Neste sentido, brincar é comunicação,
exploração, ação e meio de aprender a viver.
Em cada brincadeira, a criança encontra o sujeito de sua história,
amplia o conhecimento de sua realidade, ressignificando o mundo ao seu
redor.
As crianças, muitas vezes, deparam-se com dilemas morais em relação
aos seus desejos, respostas, escolhas, e as ordens e normas propostas
pelo mundo adulto. Mundo, este, que não vê o brincar como
algo livre e de motivação intrínseca, que carrega
o medo de errar e que não traz expectativas, impossibilitando
a espontaneidade e o prazer sem culpas. Assim, o ato de brincar é
um ato de criação, quando permite que as crianças
encontrem maneiras novas de lidar com determinados dilemas, novas experiências,
confirmando ou negando as conexões que fazem com o seu mundo
através de encenações e de experiências vividas.
Como analisa Moyles (2002, p. 76), “[...] a possibilidade de brincar
de forma intencional, livre e exploratória proporciona à
criança uma aprendizagem ativa por meio da qual as muitas ‘preliminares’
do ser capaz de compreender e resolver problemas serão encontradas”.
Assim sendo, fica evidenciada a importância das brincadeiras infantis,
pois a multiplicidade de ações que ela proporciona leva
a criança a se encontrar e se desenvolver, buscando estratégias
para organizar seus conflitos e sua participação no mundo.
Ampliando a discussão, Benjamim (1984, p. 77) afirma que:
[...] as crianças formam seu próprio
mundo de coisas, mundo pequeno inserido em um maior. Dever-se-ia ter
sempre em mente as normas desse pequeno mundo quando se deseja criar
premeditadamente para crianças e não se prefere deixar
que a própria atividade – com todos os seus requisitos
e instrumentos – encontre por si mesma o caminho até elas.
Com esta compreensão, admitimos que quem brinca
se serve de elementos culturais para construir sua própria história,
ou seja, a experiência lúdica aparece como um processo
histórico-cultural suficientemente rico para merecer uma criteriosa
análise científica para que determinados preceitos construídos
ao longo de nossas histórias de vida sejam desmistificados e
reconstruídos, a exemplo de: “é chegado o momento
das brincadeiras”, ou, “este é o momento para estudar
e não para brincar” e, ainda, “agora podem brincar”.
Dos conceitos apresentados, depreendemos que a brincadeira é
um meio pelo qual as crianças tomam conhecimento de si, dos outros
e do mundo à sua volta, e criam vínculos no seu cotidiano,
além de reordenarem idéias e encontrarem uma forma de
se estruturar e agir no ambiente.
O brincar tem uma história, uma origem e desenvolvimento que
começa nas primeiras relações entre mãe
e bebê, ressaltando, ainda, a importância de ser visto,
reconhecido e respeitado na própria singularidade, evoluindo
do brincar sozinho para o brincar compartilhado, e deste para as experiências
culturais.
Definir o passado lúdico da criança no Brasil, entre Colônia
e Império, é algo muito difícil, uma vez que estes
períodos foram marcados por grande instabilidade social. As crianças
indígenas, há muito mais de 500 anos, brincavam com as
folhas, o vento, os pássaros, a chuva, o sol e a lua, extraindo
da natureza a arte de brincar e viver. Segundo Del Priore (2004, p.
245),
[...] muito pouco se sabe da influência, na vida
infantil, das invasões holandesas a partir de 1587; dos ataques
de ingleses, franceses e holandeses ao Recife, em 1595; das sucessivas
tentativas de dominação pelos franceses do Rio de Janeiro
e do Maranhão, e da campanha de quase trinta anos dos holandeses
que conseguiram espalhar suas tropas de Sergipe ao Maranhão,
passando por Pernambuco. Mas é principalmente a partir do século
XIX, com o ingresso de levas de imigrantes no país que, além
da miscigenação étnica e a aquisição
de hábitos e costumes diferentes, muitas brincadeiras, principalmente
as cantigas de roda, as adivinhas, as formas de escolha, se incorporam
ao brincar das crianças brasileiras.
Ao analisar a literatura, percebemos que as brincadeiras
infantis estão presentes em todas as épocas, povos e contextos,
compreendendo, atualmente, uma vasta rede de conhecimentos. As brincadeiras
integram uma teoria sistematizada e uma prática atuante, buscando
discutir as relações múltiplas do ser humano em
seu contexto histórico, social, cultural, psicológico,
enfatizando a liberdade das relações pessoais, levando
o outro a refletir, criar, descobrir e se socializar com prazer e satisfação.
Meninas e meninos interagem por meio da música, das “brincadeiras
de chateação”, das brincadeiras de roda, cabra-cega
e tantas outras brincadeiras coletivas tradicionais, que, por meio do
folclore, da miscigenação, da colonização
e da industrialização, multiplicam-se e atravessam gerações
em quaisquer espaços, das cidades à zona rural.
Toda brincadeira tem uma história que precisa ser percebida,
acolhida, cuidadosamente, para ser compreendida. Esta assertiva é
ratificada por Riviere (1991, p. 70) ao admitir que “[...] em
cada ação do sujeito, em cada conduta, em cada coisa que
faz ou diz, em cada momento, sempre estão incluídos seu
passado, seu presente e seu futuro”.
Ao longo dos anos, a brincadeira foi definida por vários teóricos.
Vygotsky (1998) considera a brincadeira como zona proximal , porque
acredita que, no brincar, a criança supera sua própria
condição infantil, sendo desafiada e agindo como se fosse
uma pessoa adulta. Para Leontiev (apud VYGOTSKY, 1998), brincar é
uma ação objetiva que media as relações
e percepções do meio ambiente e dos sujeitos; Winnicott
(1971) define a brincadeira como saúde e essência do equilíbrio
humano; e Bettelheim (1988), como um estágio primitivo, livre
de regras, cheio de fantasias e sem objetivos definidos.
Da literatura, depreendemos que, por meio das brincadeiras, as crianças,
em todos os tempos, estabelecem vínculos sociais, formando grupos
e transmitindo a cultura de um povo de uma geração para
outra.
Segundo Chateau (1987, p. 14), “[...] perguntar por que a criança
brinca, é perguntar por que é criança”. A
infância não pode existir sem risos, gritos, pulos, criação,
descobertas e alegria, uma vez que é pela brincadeira que a humanidade
se manifesta.
A brincadeira possui características próprias, aproximando-se,
muitas vezes do jogo, só que este é mais estruturado e
abrangente. Para Bettelheim (1988, p. 181) “[...] os jogos em
geral, são competitivos e caracterizam-se por regras e por uma
exigência de usar os instrumentos da atividade para o qual foram
criados, e não como a imaginação ditar”.
Logo cedo, as crianças percebem a diferença entre jogar
e brincar; quando se sentem mais livres, aproximam a ficção
do humor, sem imposições, seguindo um roteiro incerto,
muitas vezes fora da realidade. Como analisa Santin (1994, p. 28) “[...]
brincar é acima de tudo exercer o poder criativo do imaginário
humano, construindo o universo real de quem brinca”. As crianças
interpretam os papéis dos adultos à sua volta para compreender
a vida, elas não teorizam, e sim, jogam e brincam.
As brincadeiras infantis transformaram-se com o passar dos tempos. Inicialmente,
as crianças brincavam com “areia”, “barro”,
“bola”, “peteca”, “pião”,
“roda”, “pipa”, “cabra-cega”, “esconde-esconde”,
“amarelinha”, “pernas de pau”, entre outras
modalidades. Meninas e meninos misturavam-se e se espalhavam pelas ruas,
pátios escolares, aldeias, bairros e campos, desenvolvendo a
criatividade, estimulando a parceria e formando seu caráter.
Atualmente, a maioria das brincadeiras faz parte da infância das
crianças e da lembrança dos adultos quando não
é roubada pelos afazeres domésticos, invadida pela mídia
e pelos mais variados brinquedos industrializados que separam as crianças
e definem os seus lugares e papéis com base no sexo. Tais situações
não permitem que meninas e meninos partilhem suas emoções,
conquistas e descobertas, e que criem um mundo de fantasias, abrindo
possibilidades para a construção de novos sonhos e aventuras.
As crianças do século XXI satisfazem suas necessidades
lúdicas brincando individualmente com vídeo games, Internet,
televisão ou outras brincadeiras passageiras que revelam, muitas
vezes, apenas um certo modismo. Segundo Belotti (1983, p. 81), “[...]
o assim chamado lazer das crianças é muitas vezes a necessidade,
comum também ao adulto, de pensar nos próprios assuntos
em santa paz, dar livre curso à imaginação, restabelecer
os canais de comunicação com o próprio íntimo”.
Vivendo em uma época marcadamente capitalista e competitiva,
o brincar, o simular, o divertir-se e o fantasiar precisam fazer parte
do universo infantil para que possamos alcançar, num futuro próximo,
subsídios mais favoráveis ao desenvolvimento da personalidade
humana e possamos comungar com o pensamento de Rubem Alves (1986, p.
86) quando diz que “[...] a liberdade é fundamental. [...]
Através do lúdico, não se está perdendo
uma evasão da realidade, mas, ao contrário, procura-se
construir e recriar esta realidade, desistindo da lógica dominante
do presente estado de coisas e tornando-se criativo”.
Qualquer que seja a brincadeira, ela está inserida numa experiência
complexa, nunca isolada, formando ações heterogêneas,
que também levam o adulto, que observa a criança brincando,
a descobrir como essa criança está inserida no seu meio
social. Segundo Brougère (2004, p. 249):
[...] hoje em dia não podemos aceitar a idéia
da relação causal simplista que permitiria considerar
que a brincadeira de guerra corresponderia automaticamente uma vida
feita de violência, nem imaginar que uma criança que brinca
de médico se tornará um deles. Se um bombeiro brincou
com um caminhão vermelho na sua infância, como inúmeras
crianças nessa idade, isso não pode ser considerado como
a causa da sua escolha profissional. Essa experiência adquire
sentido na situação em que é vivida, no momento
em que a criança usa o objeto e não no futuro.
Podemos perceber então que, quando a brincadeira
infantil é valorizada pelo adulto, a criança também
se sente importante pela sua própria capacidade de fazer coisas
importantes. Ao passo que se a brincadeira não for agradável
aos olhos dos adultos, ela será conduzida de tal modo que o prazer
pela brincadeira será reduzido gradativamente, intervindo no
desenvolvimento da sua inteligência e da sua personalidade. Acreditamos
que certas vivências lúdicas do passado estejam na origem
do que somos hoje em dia.
A criança, hoje, tem cada vez menos oportunidades e espaços
para brincar. O trabalho, a escola, a violência e os rótulos
criados para as brincadeiras e comportamentos infantis privam meninas
e meninos de sonharem, transformarem e descobrirem um mundo novo, acreditando
mais em si, em suas idéias e nos outros, como parceiros importantes
para a construção de uma sociedade mais humana. Como nos
lembra Alves (1986, p. 107), “[...] a menos que você desista
da lógica dominante da presente ordem de coisas e se torne criativo,
não viverá para ver o futuro. Estará condenado
à extinção”.
Certamente, para que isso não ocorra, precisamos de interação,
liberdade de expressão, desafios e muitas novidades acompanhando
o desenvolvimento infantil, e nada mais significativo do que fazer do
processo de aprendizagem um momento de prazer e alegria através
das brincadeiras, que contribuem para a formação do caráter
da criança e para criar oportunidades que convidem à comunicação,
à troca e ao envolvimento com o outro, criando oportunidades
para o educador ouvir e acolher as crianças.
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1986.
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da mulher. Rio de Janeiro: Vozes, 1983.
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BROUGÈRE, Gilles. Brinquedos e companhia. São Paulo: Cortez,
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CHATEAU, Jean. O jogo e a criança. São Paulo: Summus,
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DEL PRIORE, Mary (org). História das crianças no Brasil.
São Paulo: Contexto, 1992.
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MOYLES, Janet R. Só brincar? O papel do brincar na Educação
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Paulo: Martins Fontes, 1998.
WINNICOTT, D.W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1971.
Alessia Costa De A. Cravo é Mestra em Educação
pela Universidade Federal da Bahia, Especialista em Psicopedagogia,
Pedagoga, Professora da Faculdade Santíssimo Sacramento e Coordenadora
Pedagógica do Colégio Santíssimo Sacramento (Edu.
infantil e Anos iniciais).
E-mail: alessiacravo@bol.com.br
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