HISTÓRIAS DE TODO MUNDO

Estados Unidos

Estrela Cadente

Por José Arrabal

Antes de o homem branco, cara pálida feroz com armas de cuspir fogo e ganância por riquezas, invadir as nossas terras, extinguir a nossa caça, dominar a nossa gente, antes, bem antes de então, quando o povo cheyenne era a mais bela nação junto às vastas pradarias aos pés de montes rochosos, desde esse tempo passado conta história muito antiga que em clareira de bosque, num pequeno acampamento de nossa gente valente, vivia Águia da Lua, moça de rara beleza sempre com os olhos voltados para as luzes do Céu.

Claro está que esse olhar era olhar apaixonado pela estrela mais brilhante que havia no firmamento.

Prisioneira do amor, eis que em certa ocasião pretendeu Águia da Lua alcançar o seu amado, o guerreiro que era estrela em moradia celeste.

Foi à mais alta montanha que escalou até o topo, onde subiu em pinheiro, justamente no mais alto dos pinheiros da montanha. Mesmo assim não conseguiu chegar até quem amava.

Teimosa, permaneceu bem na ponta do pinheiro.

Três noites ficou por lá com os seus olhos grudados na estrela brilhante.Na terceira dessas noites, o guerreiro, conquistado, veio até Águia da Lua.

Quem bem conhece esta história sabe que a estrela brilhante, antes de aceitar a jovem, lhe impôs dura exigência:

- Se quer ser minha mulher, viver, ter filho comigo, nunca mais volte seus olhos para debaixo das nuvens, jamais veja o acampamento em que vivem os cheyennes. Se assim me obedecer, aceito ser seu senhor – determinou o guerreiro.

- Farei tudo por amor – concordou Águia da Lua...

... e foram morar no Céu, onde, bastante felizes, tiveram filho robusto, criança forte e esperta, que tinha os olhos da mãe, mais o brilho do pai.

O tempo fez do garoto um bonito rapaz. Também trouxe algo novo ao coração de sua mãe, uma crescente saudade de sua gente cheyenne que vivia na Terra.

Eis que em certa ocasião, numa vez de muito Sol, enquanto a estrela brilhante dormia durante o dia, no descanso do trabalho que sempre cumpria à noite, invadida por lembranças, com a saudade feito um rio em tempo de grande cheia, Águia da Lua quebrou a obediência ao marido. Atravessou com os olhos as poucas nuvens do Céu e viu sua gente cheyenne no acampamento de antes.

Claro que mostrou ao filho os seus parentes na Terra.

Tumultuou-se, contudo, ao intuir que seu povo não se mostrava feliz. Sem a antiga alegria que ela bem conhecia, mais parecia viver tomado pela tristeza.

Águia da Lua, intrigada com o que acontecia, de tal modo se dobrou para melhor enxergar, ver o sentido da dor na vida de sua gente, que tombou do firmamento.

No tombo, arrastou o filho, que a ela se agarrara para em vão tentar salvá-la, impedir a sua queda.

Consta que mãe e filho despencaram do Céu e caíram bem no centro do acampamento cheyenne.

Quem recorda esta história conta que Águia da Lua não sobreviveu à queda e claro que toda a gente lamentou o seu destino. Até mesmo o firmamento mostrou-se entristecido, pois na noite desse dia choveu que nem nunca antes, choro de estrela brilhante.

O rapaz sobreviveu e, por conta de seu brilho, brilho herdado de seu pai, tornou-se Estrela Cadente, nome logo dado a ele por todo o povo cheyenne que viu no moço um presente, uma doação dos deuses, esperança que traria melhor porvir para todos.

Verdade é que desde há muito a fome tomara conta daquela tribo cheyenne, impedida de caçar por obra de maldição que alcançara as pradarias junto às montanhas rochosas. Maldição de algum demônio, que chegara sem motivo, encarnado em corvo branco que na hora da caçada de repente aparecia, espantava toda a caça, desprovia toda a gente de boa alimentação. Corvo branco que sumia após cumprir sua missão.

Outro tormento existia, somado a essa desdita. Um estranho crocodilo que na escuridão da noite invadia o acampamento, levava sempre consigo uma criança, uma jovem, alguém mais desprevenido; animal de pele branca que na vastidão do dia bem sabia se esconder e jamais era encontrado por qualquer moço valente disposto a enfrentá-lo.

Desgraças que incomodaram Águia da Lua, no Céu, intuindo que sua gente se encontrava desfeliz.

Ao se inteirar de tais fatos, sem menor temor no corpo, o jovem Estrela Cadente, com o brilho de seu pai, determinação da mãe, pôs-se à disposição de seu povo cheyenne, certo de que estava pronto para o que devia e precisava fazer.

- Não temo o tal crocodilo, perverso de pele branca. Com desmedo, hei de matá-lo. E, decerto, com astúcia, prometo capturar o maldito corvo branco que nos impede caçar o alimento preciso para todo o acampamento – foi o que, decidido, assegurou a seu povo.

Em vigília valorosa, não dormiu naquela noite, nem na noite seguinte. Justo na terceira noite de sua guarda constante, levando lança e facão, encarou o crocodilo.

- Peste branca, pode vir! – gritou para o animal.

Consta que o crocodilo, com fúria, abriu a bocarra.

Consta que Estrela Cadente, sem hesitar um instante, mergulhou dentro do bicho. No interior do animal, com a lança que levava, feriu o seu coração. Ágil com o facão, cortou o corpo do monstro, saindo de onde estava. E assim matou a fera.

- Agora resta prender o corvo que nos impede de caçar o alimento que mantém viva e feliz a nossa nação valente – com força e fé proclamou a sua disposição.

Adianta quem bem sabe desta história valorosa e de redenção de um povo, que o corvo aparecia justamente no instante em que algum caçador do acampamento cheyenne apontava sua flecha para acertar sua caça. Instante em que a ave branca, vendo o que acontecia, logo avisava à caça do perigo que corria.

- Corre! Corre! Corre! Corre! – gritava e a caça fugia livre do caçador.

Daí, o corvo sumia, mas, se preciso, voltava, atrapalhava a caçada.

- Tem os seus dias contados e bem sei o que fazer – falou Estrela Cadente, já com seu plano armado para vencer o corvo. – Só preciso que aconteça a ocasião devida para agir sem vacilar – pôs-se assim a esperar.

Eis que em certo dia, três semanas depois, nos arredores das terras do acampamento cheyenne, surgiu manada de búfalos, a mais preciosa caça que alimentava o povo, além de lhe dar bom couro para roupas e cabanas.

- Agora chegou a vez, a hora do corvo branco! Hei de capturá-lo!

O que se sabe e se diz é que Estrela Cadente disfarçou-se de búfalo, cobriu-se com velho couro que havia no acampamento, mascarou-se até com chifre de maneira astuciosa, certamente convincente. E misturou-se à manada sem se deixar descobrir pelos demais animais.

A três jovens caçadores, cheyennes sempre valentes, determinou que apontassem suas flechas contra ele. Assim, então, se manteve feito caça disponível a quem quisesse caçar.

Sob a mira dos amigos, viu corvo aparecer.

- Corre! Corre! Corre! Corre! – sem demora, ouviu a ave.

Não correu. Fingiu pastar.

O corvo branco teimou:

- Corre! Corre! Corre! Corre!

Manteve-se onde estava, o que trouxe para perto, bem perto, a seu alcance, o corvo todo agitado, insistindo com o aviso.

Pronto! Foi o bastante!

Num salto, Estrela Cadente agarrou com suas mãos o corvo amaldiçoado. Agarrou e não soltou.

Os três jovens caçadores trataram então de caçar sem qualquer impedimento. Levaram ao acampamento três búfalos abatidos. E levaram o corvo branco devidamente detido. Alegraram nossa gente, que, com Estrela Cadente, voltou a viver feliz nas bonitas pradarias junto às montanhas rochosas.

Conta esta história antiga bem antes de o homem branco, cara pálida feroz com armas de cuspir fogo e ganância por riquezas, invadir as nossas terras, extinguir a nossa caça, dominar o nosso povo.

Justa história de cheyennes, nação de bravos valentes na luta por seu destino.

 

 

José Arrabal é professor universitário, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira: Teatro” (Editora Brasiliense), “A Princesa Raga-Si”, “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras, Vol 1/Vol. 2”, “Cacuí O Curumim Encantado”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta” (Editora Paulinas), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço”, “Demeter A Senhora dos Trigais” (Editora FTD), “Histórias do Japão” (Editora Peirópolis) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora). [“HISTÓRIAS DE TODO MUNDO” - Copyright José Arrabal] josearrabal@uol.com.br

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