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PONTOS &
CONTRAPONTOS
COMO VAI MEU FILHO NA ESCOLA, PROFESSOR?
Por Jussara Hoffmann
Muitas escolas consideram que a tarefa de avaliar está
cumprida quando apresentam às famílias os resultados parciais
ou finais de desempenho escolar dos alunos. As formas de apresentação
sofrem variações dependendo da concepção
defendida pelas escolas: pareceres descritivos/relatórios, cadernetas
de notas, portfólios, dossiês.
As questões em pauta neste artigo são duas: a) serão
os pais os principais destinatários desses documentos? b) Compreenderão
todos eles, em profundidade, o significado dos pareceres ali emitidos?
Observando o portfólio de um aluno de Ensino Fundamental, deparei-me
com uma coleção de um ou dois exemplares de textos, tarefas,
desenhos, testes e auto-avaliações realizados por ele
bimestralmente em todas as disciplinas. A cada período letivo,
repetia-se uma coleção semelhante de suas “produções”.
Algumas com correções, observações e conceitos,
outras sem qualquer anotação. Perguntei, então,
aos professores o que as produções apresentadas significavam
em termos do desempenho global do aluno (satisfatório ou não?),
ou seja, o que este conjunto estaria representando em termos de seus
avanços, conquistas, eventuais dificuldades de aprendizagem.
Perguntei-lhes, também, quais seriam suas considerações,
orientações e/ou recomendações quanto a
questões ali evidentes – uma vez que o menino estaria sendo
promovido a uma outra série, sob a responsabilidade de outros
professores. Alguns se surpreenderam com minhas perguntas e disseram
que muitas tarefas tinham sido escolhidas pelo próprio aluno,
poucas por eles. Que o portfólio já estaria comprovando
a qualidade do desempenho do estudante, assim como o trabalho realizado
pelos professores e pela escola. Confesso, entretanto, que nada disso
me ficou claro na leitura. As produções escolares, por
exemplo, haviam sido reunidas aleatoriamente e abordando diferentes
conteúdos. Não ficaria tranqüila, se fosse meu filho,
quanto ao seu desempenho escolar. (Teoricamente, sugere-se arquivar,
no portfólio, produções representativas que permitam
interpretar a evolução do aluno em determinada área
de conhecimento. Fazem parte dele também as sínteses globalizadoras
do professor que dá sentido valorativo ao conjunto.) Trago o
exemplo de uma situação que costuma gerar desconfiança
e atritos entre pais e professores no quesito avaliação.
Neste caso incluem-se os “relatórios atrativos e superficiais”,
como este portfólio, as fichas padronizadas de avaliação,
os pareceres descritivos roteirizados e mesmo as tradicionais cadernetas
de notas + pareceres atitudinais. Pela fragilidade ou superficialidade
das informações recebidas, os pais tendem a fazer a costumeira
pergunta: “Afinal, como vai meu filho na escola, professor?”
O que receiam? Não saber se, afinal de contas, seus filhos estão
apresentando um desenvolvimento adequado à sua faixa etária.
Relatórios de avaliação são instrumentos
essenciais ao trabalho pedagógico em primeiro lugar. Os pais
não são seus destinatários principais, mas precisam
compartilhar, como pais educadores, dessas informações.
As escolas têm o compromisso de possibilitar-lhes o acesso permanente
e consistente a tal informação, minimizando a insegurança
das famílias, bem como sua interferência nas decisões
de caráter exclusivamente pedagógico. Sem dúvida,
encontrar uma forma adequada de relatar a qualidade do desempenho escolar
favorece uma outra dimensão de participação da
família na escola. Infelizmente, não há uma receita
para se cumprir tal tarefa em sua plenitude. Pela experiência
que tenho, não é simplesmente mudando da caderneta de
notas para relatórios descritivos, por exemplo, que isto acontece.
As notas, já sabemos, pouco revelam, além de aceitar uma
gama infindável de distorções, arbitrariedades
e interpretações subjetivas. Exacerbam a competição
e o individualismo entre crianças, jovens, famílias. Muitos
pareceres descritivos, por outro lado, são questionáveis
quando focam por demais as questões atitudinais, ao seguirem
padrões e roteiros, centrados mais no trabalho dos professores
do que nos alunos.Bons relatórios resultam, isto sim, de um efetivo
acompanhamento individual, da tenacidade de se observar cada estudante
no dia-a-dia da sala de aula, conversando muito com ele e sua família,
refletindo sobre como está evoluindo e intervindo adequadamente
- uma ação pedagógica crítico-reflexiva
que irá resultar naturalmente numa clara e consistente comunicação
de resultados do desempenho escolar. O que se escreve sobre o aluno
tem por origem o que se construiu para ele, com ele e na relação
com seu contexto familiar e social. A pluralidade de formas disponíveis
exige, de um lado, a consciência dos fins e da natureza de cada
uma delas e, ao mesmo tempo, a certeza de que, em benefício ao
educando, uma é preferível às demais. Nenhum avaliador
pode se declarar neutro, obediente a normas ou arbitrário neste
sentido, uma vez que apresentar tais “resultados” incute
em decisões éticas que afetam para sempre a vida dos alunos
e de seus familiares.
Jussara Hoffmann é Escritora, Conferencista
e Consultora em Educação. Diretora da Editora Mediação
- A Editora do Professor
www.jussarahoffmann.com.br
Revista Direcional Educador
- tel. (11) 5573-8110 fax.(11) 5084-3807 faleconosco@direcionalescolas.com.br
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